
O pedido de avocação protocolado junto à Executiva Nacional do MDB por deputados distritais e pelo deputado federal Rafael Prudente representa mais do que uma disputa interna partidária. O movimento expõe uma divisão estratégica sobre o futuro político do partido no Distrito Federal e pode produzir reflexos diretos na governabilidade da gestão da governadora Celina Leão.
O documento encaminhado ao presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, demonstra que uma parcela significativa da bancada e das principais lideranças da legenda não concorda que as decisões sobre alianças e candidaturas para 2026 permaneçam concentradas no comando regional do partido. Na prática, o pedido sinaliza uma tentativa de retirar da direção local o controle exclusivo das definições eleitorais do MDB no Distrito Federal.
O MDB como fiel da balança
Atualmente, a oposição declarada ao Governo do Distrito Federal conta com sete deputados distritais:
- PT: 3 parlamentares;
- PSOL: 2 parlamentares;
- PSB: 1 parlamentar;
- PSDB: 1 parlamentar.
Com isso, a oposição soma sete deputados.
Caso os quatro deputados distritais do MDB rompam definitivamente com o Palácio do Buriti e passem a atuar de forma coordenada contra o governo, a oposição poderá alcançar 11 parlamentares, alterando significativamente a correlação de forças na Câmara Legislativa.
Embora as votações nem sempre ocorram em blocos rígidos, uma oposição ampliada teria mais capacidade para dificultar a aprovação de projetos estratégicos, fortalecer instrumentos de fiscalização e aumentar o custo político das matérias de interesse do Executivo.
A disputa de 2026 está antecipando a crise
O centro do conflito não é administrativo, mas eleitoral.
De um lado está o grupo liderado pelo ex-governador Ibaneis Rocha, que trabalha para manter o MDB como protagonista da composição majoritária de 2026. Do outro, a direção regional do partido tem sido associada a uma aproximação com o projeto político da governadora Celina Leão, movimento que vem sendo questionado por parte da bancada emedebista.
A divergência acabou sendo levada à direção nacional da legenda, que agora será chamada a arbitrar um conflito que ultrapassou os limites do diretório regional.
Governabilidade pode entrar em zona de turbulência
Se o MDB migrar definitivamente para a oposição, o governo poderá enfrentar seu período mais delicado desde o início da atual legislatura.
A Câmara Legislativa historicamente opera com forte base governista, permitindo aprovações relativamente tranquilas de projetos do Executivo. Entretanto, uma oposição ampliada para 11 deputados teria condições de transformar votações que antes eram consideradas previsíveis em disputas políticas relevantes.
Projetos envolvendo empréstimos, operações financeiras, alterações orçamentárias, concessões, privatizações e outras matérias de interesse do governo passariam a exigir negociações mais complexas e maior mobilização da base governista.
O cenário poderá se tornar ainda mais sensível caso a governadora Celina Leão decida promover uma ampla reforma administrativa, hipótese que vem sendo comentada nos bastidores políticos do Distrito Federal. Entre as possibilidades discutidas por lideranças políticas estaria a exoneração de indicados vinculados a parlamentares e grupos políticos do MDB, incluindo nomes ligados ao ex-governador Ibaneis Rocha.
Caso uma medida dessa natureza venha a ser adotada, a tendência seria de aprofundamento do desgaste entre o Palácio do Buriti e o MDB. Além do impacto administrativo, a eventual retirada de espaços ocupados por aliados da legenda poderia acelerar um rompimento político que hoje ainda é considerado reversível por parte dos atores envolvidos.
Nos bastidores, interlocutores avaliam que um eventual “decretão” de exonerações teria potencial para consolidar a migração definitiva do MDB para a oposição, ampliando as dificuldades de articulação do governo na Câmara Legislativa justamente no momento em que as forças políticas começam a se organizar para as eleições de 2026.
Cenário ainda está aberto
Apesar da escalada da crise, o rompimento definitivo ainda não é inevitável.
A decisão de Baleia Rossi de levar a discussão para a esfera nacional demonstra que o MDB busca evitar uma ruptura irreversível no Distrito Federal. Nos próximos meses, o partido deverá definir se permanecerá próximo ao projeto político da atual governadora ou se construirá uma estratégia própria para a disputa eleitoral de 2026.
O desfecho dessa disputa não influenciará apenas o futuro do MDB-DF. Dependendo da posição adotada pela legenda, poderá redefinir o equilíbrio político da Câmara Legislativa e impactar diretamente a capacidade de governabilidade do Governo do Distrito Federal até o final do mandato.


