
Depois de muitos anos acompanhando a política do Distrito Federal, aprendi que os bastidores do poder muitas vezes dizem mais do que os discursos oficiais. Nos últimos tempos, uma pergunta tem circulado entre parlamentares, assessores, jornalistas e profissionais da política: o que pensar de um governador que reage com irritação sempre que é contrariado?
Refiro-me ao governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Nos corredores da política local, tornou-se recorrente ouvir relatos de que divergências com o chefe do Executivo podem resultar em exonerações rápidas e, em alguns casos, acompanhadas de xingamentos direcionados a parlamentares, assessores, jornalistas e até secretários.
O episódio mais recente envolve o deputado distrital Thiago Manzoni. Em discurso no plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal, o parlamentar relatou que, além de ter aliados exonerados do governo, ao falar com o governador teria sido alvo de xingamentos.
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Esse tipo de postura não é um fato isolado, mas uma atitude que, de forma recorrente, muitos assessores e até parlamentares da base me relataram já ter presenciado ou sofrido em outras ocasiões.
Escrevo também com a autoridade de quem viveu algo semelhante. Após 15 anos de trabalho na Câmara Legislativa, fui exonerada em tempo recorde, a mando de Ibaneis, que promoveu uma verdadeira caçada, ligando para o presidente da CLDF, líder do Governo, dentre outros parlamentares de seu partido e de outras legendas, até descobrir quem teria me indicado. O motivo, ao que tudo indica, foi uma matéria publicada neste veículo de comunicação sobre a falta de UTIs pediátricas no Distrito Federal. A reportagem expôs um problema grave na saúde pública e, pelo que ouvi posteriormente, teria sido a gota d’água para que o governador determinasse minha exoneração.
A decisão causou perplexidade entre diversos parlamentares, inclusive de partidos que compõem a base do governo, como o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e o Progressistas (PP). Muitos se surpreenderam com a rapidez da medida e com o clima de tensão que passou a marcar algumas relações políticas no Distrito Federal.
Assim como relatado pelo deputado Thiago Manzoni, também vivi situação semelhante. Durante minha trajetória profissional, testemunhei e fui alvo desse tipo de tratamento — algo que, infelizmente, não é comum: um governador determinar a exoneração de uma servidora de outro poder ou um governador proferir xingamentos a Deputado Distrital eleito pelo povo.
Ao mesmo tempo, cresce nos bastidores a informação de que o governador trabalha para viabilizar uma candidatura a deputado federal na eleição deste ano. Diante desse cenário, a forma como lida com críticas e divergências passa a ser observada com ainda mais atenção.
Na política, discordar faz parte do processo democrático. O que não pode se tornar rotina é transformar a divergência em motivo para perseguições ou exonerações. Afinal, governar também exige ouvir — inclusive quando a opinião contrária incomoda.


