
Após a publicação, por nosso portal, da matéria “MDB joga ‘9 por 1’ e expõe disputa interna por vaga na Câmara”, assinada pela jornalista e analista politica Renata Poli (Renatinha), decidimos dar continuidade à trama que envolve a possível candidatura de Ibaneis à Câmara dos Deputados.
A política no Distrito Federal deixa de ser apenas arriscada e passa a revelar, com cada vez menos disfarces, uma lógica fria de sobrevivência no poder, comandada por Ibaneis Rocha. A reunião com os chamados “oito degraus” não tem nada de construção coletiva: trata-se de uma engenharia eleitoral calculada, na qual aliados são tratados como peças para que ele possa alcançar o topo de um projeto essencialmente individual.
Na prática, Ibaneis já atua como pré-candidato a deputado federal e monta, dentro do MDB, uma nominata que não tem como objetivo fortalecer o partido, mas sim garantir sua própria eleição. Os “degraus” são isso mesmo: degraus. Servem para somar votos, inflar o quociente eleitoral e abrir caminho para que ele alcance o mandato. Depois disso, o destino desses aliados é, no mínimo, incerto e, no limite, irrelevante dentro da estratégia.
A matemática eleitoral escancara ainda mais essa lógica. Com apenas oito vagas e uma disputa fragmentada envolvendo PSD, Republicanos, PL, PSB, PT, PSOL e Solidariedade, a tendência é brutal: poucos sobrevivem. E, nesse jogo, Ibaneis parece disposto a concentrar todos os esforços políticos e financeiros em si mesmo, deixando os demais candidatos para disputar as sobras.
O ponto mais sensível dessa equação atende pelo nome de Rafael Prudente. Com densidade eleitoral própria, Prudente não se encaixa facilmente no papel de figurante. E é exatamente por isso que se torna um problema dentro do desenho de Ibaneis. Se permanecer na proporcional, ajuda e pode ser eleito com a sobra de votos. Se sair para uma majoritária, atrapalha — e muito. Mais do que isso: expõe a fragilidade de um projeto que depende da submissão interna para funcionar.
A discussão sobre candidatura própria ao Palácio do Buriti intensifica esse racha, já que conta com o aval da executiva nacional do partido. A ala histórica do MDB relembra o erro de 2006, após Joaquim Roriz, e vê com desconfiança um partido que, mais uma vez, pode abrir mão de protagonismo para servir a interesses pontuais. O problema é que, desta vez, o custo interno pode ser ainda maior.
Nesse tabuleiro, Wellington Luiz tende a seguir alinhado com Celina Leão, podendo, inclusive, ocupar o posto de vice-governador, consolidando uma ala que aposta na continuidade e na manutenção do poder institucional. Mas essa não é a única via dentro do partido.
Nos bastidores, cresce a articulação com o grupo de Arruda. Hoje no PSD, Arruda desponta como o nome mais forte em praticamente todos os cenários para a disputa ao Governo do DF, além de carregar uma relação histórica de décadas com o MDB e suas bases. Essa conexão amplia seu poder de atração dentro da legenda e transforma sua eventual candidatura em um fator real de ruptura interna.
Ao mesmo tempo, o grupo liderado por Ibaneis e Celina enfrenta um desgaste crescente. Denúncias e questionamentos envolvendo o Banco Master, em operações com o BRB, além de críticas relacionadas ao IPREV e ao INAS (GDF Saúde), vêm se somando a problemas recorrentes em áreas sensíveis, como saúde e educação. Esse acúmulo de desgaste deixa de ser episódico e passa a compor um cenário contínuo de pressão política e desgaste de imagem.
Nesse ambiente, Rafael Prudente ganha ainda mais relevância. Ele pode tanto disputar espaço em uma chapa majoritária dentro do próprio MDB quanto, em um movimento mais ousado, deixar a legenda para compor com Arruda, inclusive como vice-governador. Para seu grupo político, aceitar um papel secundário ou mesmo a condição de suplente em uma chapa desenhada para eleger Ibaneis está fora de cogitação.
O recado já foi dado: há disposição para o enfrentamento. O que está em jogo não é apenas uma vaga, mas a sobrevivência política de um grupo que se recusa a ser reduzido a figurante. E é justamente esse fator que pode implodir a estratégia de Ibaneis.
O que se desenha, portanto, não é apenas uma disputa eleitoral, mas uma guerra interna. Ibaneis aposta que conseguirá usar o partido como escada para se manter no poder. O risco é que, desta vez, os “degraus” não aceitem mais ser pisados e decidam derrubar toda a estrutura antes de serem descartados.


