Reunião para conter insatisfação termina com promessas ambiciosas, enquanto candidatos questionam critérios de distribuição e apontam tratamento desigual dentro da nominata
No meio político, principalmente para os menos experientes, existe uma regra básica que não pode ser ignorada: eleição não se ganha com discurso. Ganha-se com voto. E voto é matemática.
É justamente aí que começa o problema do PSD-DF.
A legenda reúne 25 candidatos na disputa por vagas de deputado distrital e, durante reunião realizada na noite de ontem para tentar “alinhar” os ânimos diante da crescente insatisfação com a distribuição dos recursos do fundo eleitoral, surgiu a promessa de que o partido teria condições de eleger dois ou até três deputados distritais.
A questão é simples: será que essa conta fecha?
Segundo estimativas que circulam no meio político, uma nominata competitiva precisaria atingir uma votação expressiva para conquistar vagas na Câmara Legislativa do Distrito Federal. As projeções variam de acordo com o desempenho das demais chapas e com o cálculo eleitoral, mas o cenário exige uma votação coletiva robusta.
E é justamente nesse ponto que a promessa começa a esbarrar na realidade.
PROMESSA DE TRÊS ELEITOS DIANTE DE UMA NOMINATA QUESTIONADA
Como o PSD pretende eleger dois ou até três deputados distritais se parte dos próprios candidatos questiona a falta de estrutura e de recursos para fazer campanha?
A pergunta não é retórica.
Basta olhar para os partidos concorrentes.
PT, PL, Republicanos e outras legendas entram na disputa com estruturas mais consolidadas, parlamentares com mandato, candidatos competitivos e nominatas consideradas fortes.
Enquanto isso, dentro do PSD, candidatos questionam não apenas a capacidade de votação da chapa, mas principalmente a forma como os recursos do fundo eleitoral estão sendo distribuídos.
REUNIÃO TENTOU APAGAR O INCÊNDIO
A reunião realizada na noite de ontem ocorreu justamente em meio à pressão de candidatos insatisfeitos com aquilo que classificam como uma distribuição desigual dos recursos.
Segundo relatos de participantes, o vice-presidente do PSD foi questionado sobre os critérios utilizados para definir os valores destinados aos candidatos.
E foi justamente nesse momento que surgiu outro ponto de forte incômodo: a distribuição dos recursos destinados às mulheres e às ações relacionadas à diversidade racial.
Segundo o vice-presidente do PSD, durante a reunião, a divisão dos recursos levou em consideração verbas destinadas a mulheres, candidatos pardos e candidatos negros.
O problema é que, entre os candidatos, o desconforto teria sido enorme diante da forma como essa divisão ocorreu.
APENAS UMA DAS OITO MULHERES TERIA RECEBIDO RECURSOS
Dos oito nomes femininos que disputam uma vaga de deputada distrital pelo PSD, apenas uma candidata teria sido contemplada com recursos nessa divisão específica.
Segundo os relatos apresentados na reunião, dos R$ 1 milhão destinados à nominata de distritais, aproximadamente R$ 150 mil teriam sido destinados a uma única candidata, enquanto as outras sete mulheres permaneceriam sem receber recursos dessa parcela.
O dado provocou questionamentos internos porque, segundo os próprios candidatos, 30% de R$ 1 milhão corresponderiam a R$ 300 mil.
Ou seja: na avaliação dos críticos internos, mesmo considerando a necessidade de observar as regras eleitorais aplicáveis e os critérios específicos de distribuição dos recursos, a divisão apresentada na reunião teria deixado uma diferença de aproximadamente R$ 150 mil em relação aos 30% mencionados pelos candidatos.
E há um detalhe que tornou o episódio ainda mais sensível:
a candidata beneficiada seria ligada politicamente ao próprio vice-presidente da legenda.
A informação aumentou a irritação entre as demais candidatas, que passaram a questionar por que sete mulheres ficaram sem recursos enquanto uma única candidatura recebeu aproximadamente R$ 150 mil.
A pergunta que circulou nos bastidores foi inevitável:
Qual foi exatamente o critério utilizado para escolher uma única candidata entre oito?
E, principalmente:
por que as demais sete candidatas ficaram sem qualquer recurso dessa divisão?
R$ 1 MILHÃO, POUCOS BENEFICIADOS E MUITOS QUESTIONAMENTOS
Os números apresentados pelos candidatos também ampliaram a tensão.
Segundo informações atribuídas aos dados de prestação de contas eleitoral mencionados durante a discussão, Rogério Morro da Cruz, que obteve 18.207 votos em 2022, teria recebido R$ 800 mil.
Já Simone Magalhães, que teve 2.554 votos em 2022, teria recebido R$ 155 mil.
Jabá, com 6.632 votos em 2022, teria recebido R$ 50 mil.
Enquanto isso, segundo relatos dos candidatos, diversos outros nomes da nominata não receberam nem uma moeda para comprar um pirulito enquanto assistem os três candidatos utilizarem os recursos.
A diferença de valores provocou uma pergunta incômoda dentro do próprio partido:
Como uma nominata de 24 candidatos pretende ser competitiva se os recursos estão concentrados em poucos nomes?
O CASO ROGÉRIO MORRO DA CRUZ
O principal foco de questionamento continua sendo a destinação de aproximadamente R$ 800 mil a Rogério Morro da Cruz, valor que, segundo informações apresentadas pelos críticos internos e dados de prestação de contas mencionados no debate, representa uma concentração expressiva dos recursos destinados até agora.
O parlamentar passou a ser alvo de questionamentos internos também após vídeos divulgados nas redes sociais mostrarem sua recepção à vice-governadora e candidata ao Governo do Distrito Federal, Celina Leão, em São Sebastião.
Celina é adversária direta de José Roberto Arruda na corrida pelo Palácio do Buriti, circunstância que aumentou ainda mais o desconforto dentro do partido.
E a pergunta continua:
Qual foi o critério utilizado para concentrar tamanho volume de recursos em um único candidato enquanto outros integrantes da nominata ainda aguardam dinheiro para colocar suas campanhas nas ruas?
SETE MULHERES SEM RECURSOS E UMA CONTEMPLADA
O episódio envolvendo as candidatas mulheres pode se transformar em um dos maiores problemas políticos da nominata.
São oito candidatas mulheres.
Uma delas teria recebido aproximadamente R$ 150 mil.
As outras sete, segundo os relatos apresentados na reunião, teriam ficado sem recursos dessa parcela.
Para quem está tentando construir uma nominata competitiva, o problema é evidente.
Não se trata apenas de dinheiro.
Trata-se de estrutura eleitoral, material de campanha, comunicação, deslocamento, mobilização, presença territorial e capacidade de conquistar votos.
Sem recursos, candidatos com potencial eleitoral podem simplesmente não conseguir colocar suas campanhas de pé.
E OS CANDIDATOS QUE NÃO RECEBERAM NADA?
A situação fica ainda mais delicada quando se olha para os demais integrantes da nominata.
Há candidatos que temem receber valores entre R$ 30 mil e R$ 50 mil, enquanto outros já teriam recebido centenas de milhares de reais.
A diferença pode representar uma enorme vantagem competitiva dentro da própria chapa.
E eleição proporcional não é uma corrida individual.
Cada voto conquistado por um candidato ajuda a formar a votação coletiva da legenda.
Por isso, enfraquecer candidatos competitivos pode significar também enfraquecer o próprio partido.
SEM INVESTIMENTO, DE ONDE VIRÃO OS VOTOS?
Essa talvez seja a pergunta que mais incomoda a direção partidária.
Uma chapa proporcional não depende apenas de um ou dois candidatos.
Para eleger deputados, o partido precisa de uma nominata forte.
Precisa de candidatos competitivos.
Precisa de votos espalhados por toda a chapa.
Quando grande parte dos recursos fica concentrada em poucos nomes, surge um risco evidente: os demais candidatos não conseguem crescer, a votação coletiva diminui e o partido pode perder força na disputa pelas vagas.
Em outras palavras:
não basta colocar 24 nomes em uma lista e anunciar que o partido poderá eleger três deputados. É preciso apresentar a matemática.
De onde virão os votos?
Quais candidatos terão estrutura para superar dezenas de milhares de votos?
Quem financiará as campanhas dos nomes que ainda não receberam recursos significativos?
E, principalmente, como candidatos sem estrutura conseguirão contribuir para elevar a votação coletiva do PSD?
O CONTO DE FADAS PODE VIRAR PESADELO ELEITORAL
A tentativa de convencer os candidatos de que a legenda poderá eleger dois ou três deputados distritais pode até servir para animar uma reunião.
Mas campanha eleitoral não se sustenta apenas com discurso.
A urna é implacável.
Ela não conhece reunião de alinhamento.
Não conhece promessa de direção partidária.
Não conhece discurso de bastidor.
Ela conhece voto.
Se o PSD realmente pretende transformar a promessa de dois ou três eleitos em realidade, terá de demonstrar como pretende fortalecer os 24 candidatos — e não apenas aqueles que já receberam os maiores volumes de recursos.
Porque, até agora, a pergunta continua no ar:
Como uma nominata que enfrenta reclamações sobre falta de recursos pretende eleger até três deputados distritais?
E há outra pergunta que a direção partidária terá de responder:
Por que, entre oito candidatas mulheres, apenas uma teria recebido recursos dessa divisão, justamente uma candidata apontada como ligada ao próprio vice-presidente da legenda?
Talvez a direção do PSD tenha uma fórmula eleitoral que os demais partidos ainda desconhecem.
Ou talvez esteja apenas tentando vender esperança a candidatos que, enquanto alguns recebem centenas de milhares de reais, continuam esperando recursos — e respostas.
No final, porém, não será a reunião que dará o veredito.
Será a urna.
Em 2022, foram 1.660.387 votos válidos para deputado distrital e o quociente eleitoral foi de 69.182 votos.
Tomando esse número como referência:
| Cadeiras conquistadas | Cálculo aproximado | Votos necessários |
|---|---|---|
| 1 deputado distrital | 1 × 69.182 | 69.182 votos |
| 2 deputados distritais | 2 × 69.182 | 138.364 votos |
| 3 deputados distritais | 3 × 69.182 | 207.546 votos |
| 4 deputados distritais | 4 × 69.182 | 276.728 votos |
Mas atenção: esses números representam uma referência pelo quociente partidário, não uma garantia matemática de que exatamente essas quantidades de votos resultarão em 1, 2 ou 3 cadeiras.
Agora cabe aos candidatos fazerem as contas e verificarem o potencial de cada um e se compensa de fato irem as ruas para gastar seus recursos próprios ou de colaboradores enquanto o Show do Milhão permeia um pequeno grupo.




