Em meio a um xadrez político de cifras astronômicas, a distribuição do Fundo Eleitoral escancara abismos, provoca reuniões de emergência no partido e revela alianças de bastidores que podem mudar o rumo das eleições no DF.
Por Renata Poli
Uma disparidade de valores que choca até mesmo os mais calejados analistas políticos dos bastidores de Brasília. É assim que se desenha a atual distribuição do Fundo Eleitoral dentro do PSD. Enquanto candidatos que vão gastar sola de sapato na disputa por vagas na Câmara Distrital e no Congresso Nacional foram deixados literalmente com o pires na mão, as torneiras do partido se abriram com força para quem sequer precisa de votos diretos nas urnas.
Isso mesmo que você leu: Eunice Santos, a primeira suplente do candidato ao Senado, Ronaldo Fonseca, foi agraciada com a injeção de aproximadamente R$ 2 milhões via fundo eleitoral. O repasse milionário para Eunice, embora seja legal e esteja dentro das prerrogativas da direção partidária, levanta um questionamento indigesto e gera uma revolta silenciosa — porém fervente — entre os correligionários que lutam por sobrevivência na base da legenda. Afinal, como explicar tamanho volume de recursos para uma figura que não encabeça a chapa?
Rebelião contida e as “migalhas” do baixo clero
O clima pesou. Após as recentes revelações trazidas à tona por nosso portal sobre essas cifras astronômicas, a cúpula do PSD precisou agir rápido para conter o incêndio.
Informações de bastidores dão conta de que o vice-presidente da sigla — que, na prática, tem operado com a caneta e a autoridade de presidente — convocou todos os candidatos às pressas para uma “reunião de alinhamento”.
O resultado do encontro, no entanto, pode jogar um balde de água fria nas esperanças de quem aguardava uma divisão mais justa do bolo. Segundo fontes ouvidas por nossa reportagem, aos candidatos do chamado “baixo clero” vão receber a promessa de repasses ínfimos se comparados ao topo da pirâmide: valores entre R$ 30 mil e R$ 50 mil para custear toda a difícil campanha deste ano. A matemática é dura e evidencia que, na política, o peso das cifras raramente desce até a base.
O Jogo Duplo e o “Fator Celina”
Se o dinheiro farto para a suplência de Eunice de Oliveira já causa um estrago interno, as movimentações de outras figuras de peso do PSD adicionam requintes de imprevisibilidade ao cenário. Rogério Morro da Cruz (PSD) é o retrato perfeito desse pragmatismo. Mesmo filiado à legenda, o candidato declarou apoio aberto à candidatura de Celina Leão (PP), que hoje se consolida como a principal adversária do grupo político de Arruda.
O apoio à rival não secou as fontes de Rogério. Pelo contrário. O candidato já viu pingar em sua conta a primeira parcela do fundo eleitoral no generoso valor de R$ 800 mil. E o montante pode não parar por aí. Há quem diga nos corredores do poder que, nos próximos dias, novas injeções financeiras podem engordar ainda mais esse caixa, mostrando que o apoio cruzado tem seu preço — e ele é alto.
O Baú de Arruda
Do outro lado desse campo de batalha milionário, a estrutura de campanha de Arruda também não economiza munição. O cacique político já tem à sua disposição R$ 3 milhões oriundos da primeira parcela de seus fundos. Contudo, estrategistas apontam que a artilharia financeira deve ficar ainda mais pesada: a expectativa é que esse valor ultrapasse a impressionante marca dos R$ 7 milhões até a reta final de outubro.
A conta que o eleitor paga
No fim do dia, a verdadeira prestação de contas que fica é a moral. Não se discute aqui a legalidade dos fundos que, amparados pela legislação eleitoral vigente, são repassados aos partidos e a nomes como o da suplente Eunice Santos. O que salta aos olhos e causa justificada indignação pública é o abismo entre o discurso de renovação e a prática de concentrar caminhões de dinheiro público nas mãos de poucos, enquanto a base eleitoral sobrevive de trocados.
O xadrez está montado, as peças custam milhões, mas quem dará o xeque-mate — ou sofrerá as consequências dele — será o eleitor nas urnas. Seguimos acompanhando cada centavo


