Bia e Michelle querem os votos das pessoas com deficiência, mas candidata cadeirante abandona o PL após denunciar falta de acessibilidade

Renata Schuster Poli – Jornalista, pós-graduada em Comunicação Eleitoral e Marketing Político, CEO do Grupo Vou Lá de Comunicação e analista política com mais de vinte anos de experiência. Atuou na Câmara dos Deputados, na Vice-Governadoria e na Governadoria do Governo do Distrito Federal, além da Câmara Legislativa do Distrito Federal.

Bia Kicis e Michelle Bolsonaro têm forte discurso em defesa da inclusão. Mas o caso de Andréa Pontes expõe uma contradição que o PL-DF terá de explicar

O discurso é de inclusão. A realidade relatada por uma candidata do próprio partido é outra.

A paratleta Andréa Pontes, cadeirante e paraplégica, renunciou à candidatura a deputada distrital pelo PL-DF depois de denunciar dificuldades de acessibilidade durante a campanha. Entre os episódios relatados, está o acesso ao estúdio utilizado para gravações eleitorais, localizado em um segundo andar sem estrutura adequada.

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Segundo Andréa, para chegar ao local, ela teria que ser carregada no colo.

A candidata também relatou dificuldades para participar de eventos de campanha, inclusive em trios elétricos, por falta de rampas ou elevadores. De acordo com a reportagem do Jornal de Brasília, Andréa procurou a direção regional do PL em busca de soluções, mas afirmou não ter recebido o suporte necessário. O partido declarou que ainda não havia sido comunicado formalmente sobre a renúncia.

O episódio ganha dimensão política porque o PL-DF é dirigido por Bia Kicis, candidata ao Senado, que anunciou sua dobradinha eleitoral com Michelle Bolsonaro, também candidata ao Senado pelo Distrito Federal.

A contradição que ficou exposta

Michelle Bolsonaro apresenta a inclusão como uma de suas principais bandeiras. Em julho, declarou que a defesa das pessoas com deficiência é “a pauta do meu coração” e afirmou que essa atuação estaria acima de ideologias ou partidos.

O próprio projeto UNA Parque apresenta Michelle como sua madrinha institucional, destacando sua atuação em defesa da inclusão e da acessibilidade.

E a atual plataforma eleitoral de Michelle dedica um capítulo específico à “Inclusão, autonomia e apoio a quem cuida”, com propostas relacionadas à acessibilidade, diagnóstico, tratamento, educação, trabalho e apoio às famílias de pessoas com deficiência.

É justamente por isso que o caso de Andréa Pontes chama tanta atenção.

Como conciliar um discurso nacional de inclusão com o relato de uma candidata cadeirante que afirma ter encontrado barreiras para participar da própria campanha do partido?

Essa é a pergunta que agora fica para Bia Kicis e Michelle Bolsonaro.

Não é uma crítica de adversário

Andréa não é uma adversária política do PL. Ela foi candidata da própria legenda.

Sua renúncia, portanto, não pode ser tratada simplesmente como uma crítica externa ou como uma disputa entre grupos políticos.

É uma candidata com deficiência que afirma ter encontrado dificuldades estruturais para exercer sua própria candidatura.

E há um detalhe especialmente simbólico: enquanto o eleitorado com deficiência é cortejado nas campanhas, uma candidata desse segmento afirma ter sido impedida de participar em igualdade de condições por problemas de acessibilidade.

O contraste é evidente.

De um lado, discursos, propostas e declarações públicas em defesa da inclusão.

Do outro, uma candidata do próprio partido deixando a disputa depois de relatar que precisaria ser carregada no colo para acessar um estúdio eleitoral.

A inclusão não pode existir apenas no palanque.

Para quem vive diariamente com uma deficiência, acessibilidade não é slogan de campanha, não é fotografia e muito menos promessa eleitoral.

É condição básica para participar da vida pública.

Agora, cabe ao PL-DF explicar como uma legenda que pretende representar também as pessoas com deficiência permitiu que uma de suas próprias candidatas chegasse ao ponto de desistir da disputa por causa de barreiras de acessibilidade.

A pergunta está feita. E veio de dentro do próprio partido.

 

 

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