Do Senado à Câmara: a estratégia de sobrevivência política de Ibaneis e o novo jogo do MDB no DF

Renata Schuster Poli – Jornalista, pós graduada em Comunicação Eleitoral e Marketing Político, analista política com mais de vinte anos tendo trabalhado na Câmara Federal, vice-governadoria e governadoria do GDF, EX- assessora na Câmara Legislativa DF, CEO grupo Vou Lá de Comunicação.

O cenário político de 2026 no Distrito Federal começa a ganhar contornos mais claros — e mais duros. O governador Ibaneis Rocha, que inicialmente era apontado como potencial candidato ao Senado, pode redesenhar completamente sua estratégia eleitoral diante do novo alinhamento do campo bolsonarista.

A sinalização pública de apoio da família do ex-presidente Jair Bolsonaro às candidaturas de Michelle Bolsonaro e Bia Kicis ao Senado, além do respaldo a Celina Leão ao Governo do Distrito Federal, alterou profundamente o equilíbrio de forças. Na prática, Ibaneis foi deslocado para uma posição secundária dentro do mesmo espectro político.

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Diante desse isolamento, a disputa ao Senado passa a ser de alto risco: duas candidaturas competitivas no mesmo campo ideológico fragmentariam votos e poderiam inviabilizar seu projeto. Nesse contexto, cresce a avaliação de que a alternativa mais racional seria disputar uma vaga na Câmara Federal.


Câmara Federal como porto seguro estratégico

Ao optar por concorrer a deputado federal, Ibaneis trocaria uma eleição majoritária incerta por uma disputa proporcional mais previsível. Com projeção de aproximadamente 200 mil votos, ele entraria como um dos mais votados do DF, garantindo mandato e foro por prerrogativa de função — elemento relevante no cálculo político.

A mudança deixaria de ser vista como recuo e passaria a representar uma estratégia de preservação de capital político e reorganização partidária.


O efeito puxador e o fortalecimento do MDB

A candidatura de Ibaneis à Câmara fortaleceria diretamente o MDB no DF. Somando-se a projeção de cerca de 120 mil votos de Rafael Prudente, o partido poderia alcançar aproximadamente 320 mil votos na chapa federal.

Com esse volume, o MDB teria chances reais de eleger dois deputados federais e ainda puxar um terceiro nome, como José Humberto Pires, beneficiado pelo quociente partidário. A matemática eleitoral favorece chapas com votação concentrada em líderes fortes — e Ibaneis cumpriria esse papel.


Impacto na Câmara Legislativa

No plano distrital, o partido também manteria competitividade. Daniel Donizet, Hermeto e Wellington Luiz aparecem como nomes com potencial para ultrapassar 60 mil votos somados.

Se os demais candidatos da chapa mantiverem média próxima de 4 mil votos, o MDB pode alcançar cerca de 148 mil votos totais para deputado distrital, garantindo três cadeiras — com possibilidade de uma quarta, a depender da performance geral das demais legendas.


Novo tabuleiro e ampliação do poder de barganha

Ao sair da disputa ao Senado e concentrar forças na Câmara Federal, Ibaneis reduziria o desgaste de confronto direto com o campo bolsonarista e, ao mesmo tempo, ampliaria sua margem de negociação.

Com bancada federal robusta e presença consistente na Câmara Legislativa, o MDB ganharia musculatura para negociar alianças no segundo turno do GDF, dialogar com setores hoje distantes e até compor com dissidentes do grupo que hoje apoia Celina Leão.

Esse reposicionamento permitiria ao partido não ficar refém de um único campo político, preservando autonomia estratégica em 2026.


Conclusão: pragmatismo em vez de confronto

O desenho que se forma indica que a troca do Senado pela Câmara não seria sinal de fraqueza, mas de cálculo político. Diante do apoio declarado a Michelle Bolsonaro e Bia Kicis ao Senado e a Celina Leão ao GDF, a candidatura de Ibaneis à Câmara Federal surge como movimento de sobrevivência e reorganização.

Em vez de disputar espaço onde foi escanteado, ele pode optar por consolidar poder onde tem maior previsibilidade eleitoral — mantendo influência, mandato e protagonismo no novo ciclo político do Distrito Federal.

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