GUARDA ESPECIAL DE BRASÍLIA – G E B

GUARDA ESPECIAL DE BRASÍLIA – G E B
José Carlos Gentilli – Escritor, Membro da Academia de Letras de Brasília, da Academia Brasileira de Filologia e da Academia das Ciências de Lisboa

Foto original dos primórdios da GEB (1957). Formatura de parte da tropa, frente ao Pavilhão da  Novacap, na Candangolândia. Tenente pernambucano Amaro José da Silva, à direita, exerceu o comando  da Guarda da Novacap.

Em 14.4.1960, antes da inauguração da Nova Capital, chegou-se à hinterlândia brasileira ao raiar  do nascimento e da concretude do sonho da fundação de Brasília, sob a força cósmica e profética de  Dom João Bosco, realizada por JK, um predestinado e probo Presidente da República. 

O tempo é o Senhor das ações, que rege os seres humanos à consecução de ideais magnos, como  uma força cogente e benfazeja de cunho civilizacional, a relembrar o termo árabe (maktub), que  encerra a visão de que tudo já estava predestinado.  

A paixão é algo inexplicável, transcendente. Assim, amei a Capital da Esperança, transferindo-me  de “mala e cuia”, abandonando curso superior; a compor, após, então, a gloriosa falange da Guarda  Especial de Brasília – GEB, vez que já integrava o Exército brasileiro, como Oficial R2, da Arma de  Cavalaria.  

Ao chegar no Quartel da Candangolândia, imediatamente, fui destacado para servir sob as ordens  

do Primeiro Tenente Washington Baptista Alves, criador da Papuda e comandante da Guarda Rural,  responsável pela segurança da área do Distrito Federal. Um ícone dos primórdios da cidade com  gabinete localizado na parte superior do Pavilhão da Administração da Novacap, onde servi e aprendi,  rapidamente, a dominar e enfrentar problemas de toda ordem.  

Um negro culto e líder, paulista pragmático, oriundo da tradicional Força Pública de São Paulo,  que montou uma rede de destacamentos rurais em todo o Distrito Federal, adquirindo cavalos para a  estruturação de uma Polícia Montada, a feitio de outras congêneres. 

Era um homem respeitado por todos, especialmente pelo Comandante Geral – João Gonçalves  Netto, oriundo dos Gorros Vermelhos, da guarda getuliana, bem como pelo Diretor-Geral do  Departamento de Polícia Federal, Coronel EB Carlos Molinari Cairoli, brilhante engenheiro militar.  

Washington era um comandante ímpar, que logo se afeiçoou com minha rigidez e dedicação ao  trabalho, a formar uma dupla, conhecida como “café com leite”, um negro e outro, branco, dolicocéfalo,  a promover a repressão às queimadas criminosas no quadrilátero Cruls e a impor ordem e segurança  gebiana.  

O ex-militar da Força Pública paulista comandava o Núcleo Agrícola Correcional da Papuda,  além dos postos de segurança, da Polícia Rural.  

A Guarda Especial de Brasília era um modelo da Segurança Pública do Distrito Federal e  Washington Baptista Alves, repentinamente, vem a falecer num acidente de trânsito na avenida  W-3, nas imediações da antiga Quadra 48, quando recebo ordens, expressas do Major Cid Camargo  Prochno e do Chefe de Gabinete Major José Maria de Paula Pardo para me apresentar, imediatamente,  à presença do Diretor-Geral, Coronel Carlos Molinari Cairoli, a quem já conhecia, na Esplanada dos  Ministérios. 

Incontinente, o gaúcho Cairoli, na presença de ambos, afirmou que estaria inclinado a designar me Diretor da Papuda e escolheria outro militar para o Comando da Polícia Rural, fato acerca do que  ousei ponderar serem estruturas gemelares e rigidamente organizadas.  

– Ele me olhou de cima à baixo. De pé e à ordem, em posição de sentido, aos vinte e dois anos de  vida, fardado de culote e botas, 38 Smith Wesson, cano longo, na cintura, fitando-me, perguntou-me:  tenente, você dá conta?  

Sem pestanejar, respondi com total convicção: – sim – dou conta e precisaria apenas de um militar,  um oficial.  

– Quem é? – perguntou-me a seguir. Olhei em seus olhos e nominei de pronto: “Tenente Estevam  Iemini de Rezende, um homem honesto e equilibrado, em quem confio.”. 

O Chefe de Gabinete tentou obtemperar, mas recebeu uma ordem imperial e lacônica de Cairoli:  “Pardo, mande lavrar os atos de nomeação e coloque o militar à disposição dele.” 

-Está dispensado, disse, no jargão militar. Bati continência e saí.  

A partir de então ganhei um desafeto no Gabinete e um admirador incondicional, o calejado  Chefe de Polícia, que conhecia as diatribes do gênero humano. 

A partir de então a Papuda recebeu o diretor mais novo do Brasil com vinte e dois anos de idade,  senhor de cutelo e baraço, época em que a massa carcerária era tratada com dignidade e comia a  mesma comida dos diretores, a trabalhar rigidamente na lavoura, aviário, pocilgas e trato do gado  vacum leiteiro. 

Desta colônia correcional agrícola jamais fugiu um detento, sendo que alguns receberam  alfabetização à luz dos lampiões Coleman.  

O fogão caipira jamais apagava… 

Mandou-se construir um quarto reservado para as visitas íntimas e um parquinho para receber 

os filhos dos condenados, aos domingos, sendo que o fumo era dado com recursos da venda dos  produtos agrícolas, semanalmente, no Núcleo Bandeirante.  

Neste interregno, os tenentes Evanildo Bathomarco Pastori e Jair Gomes de Assumpção, este último  recentemente falecido, oficiais da GEB, diretores da Papuda, são destacados para outras missões em  Brasília, devendo-se enaltecer que criaram o aviário, durante a passagem pelo núcleo. 

Durante um ano os Tenentes José Carlos Gentil(i) e Estevam Iemini de Rezende estiveram a  comandar as estruturas, um gaúcho e um mineiro, com exemplaridade administrativa inatacável, que  foram secundados pelo engenheiro Oscar de Aguiar Rosa. 

Carlos Molinari Cairoli era um líder, também, que deixou saudade e exemplos funcionais na  montagem do Departamento Federal de Segurança Pública -DFSP!

Inspetoria de Trânsito (1957), no Núcleo Bandeirante, vendo-se da esquerda para à direita:  o primeiro diretor – Coronel Benedito Pinheiro, Coronel Antônio Alves Muzzi Pinto (Chefe da  Segurança Pública da Novacap), Tenente da Reserva (GO), Militar da PMGO, Tenente Amaro  José da Silva (Cmte. da Guarda da Novacap) (pernambucano), Militar do Detran/GO e os guardas  Antônio Pereira e Acelino Dias da Silva (GEB). 

*José Carlos Gentili, ex-tenente da GEB. 

(O lançamento de duas obras com cerca com 1.750 páginas, intituladas Guarda Especial de Brasília e registros dos  primórdios da Segurança Pública de Brasília constituem-se na pré-história da Capital Federal, que deveria ser matéria ao  alcance dos pósteros).

Da Redacao

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