TEMPO – O SENHOR DAS AÇÕES

TEMPO – O SENHOR DAS AÇÕES
Quadro de Dom Pedro II, exilado em França, em 1891. (Acervo do Museu Imperial em Petrópolis).

Parece que foi antigamente, mas foi ontem, em 1891, data de seu ritual fúnebre, pois a esteira do  tempo metamorfoseia valores éticos, a tornar vil a cultura e a memória, que se esvaem pelos escaninhos  do esquecimento societário.  

José Carlos Gentilli – Escritor, Membro da Academia de Letras de Brasília, da Academia Brasileira de Filologia e da Academia das Ciências de Lisboa

A ralé da República das Alagoas – até parece uma sina –, de cores florianísticas e deodorenses, que  vicejam até hoje, emerge sob o manto republicano, a valorar o desdém pela tradição e pelos processos  educativos de qualidade. 

Registram-se 132 anos do exílio imposto ao monarca D. Pedro II, embarcado às pressas no navio  Alagoas, em 17 de novembro de 1889, rumo à Europa, a fim de a República poder locupletar-se com  o processo mandamental. 

Relembra Arnaldo Niskier, um dos expoentes do ensino brasileiro, que o jovem monarca, em  1.1.1843, numa de suas Falas do Trono, foi imperativo ao afirmar: “Nasci para consagrar-me às letras  e às ciências.”  

Afinal, D. Pedro II falava português, alemão, inglês e francês; estudara sânscrito, latim e grego;  cursara Humanidades e tivera professores intelectualmente multifacetados.  

Seu pai e antecessor, D. Pedro I, mais tarde D. Pedro IV, em Portugal, já em 1824, propusera a  criação de escolas de primeiras letras em todos os vilarejos da nação brasileira com a garantia de  ensino gratuito, aspiração jamais alcançada. 

A visão humanística de D. Pedro II acompanhou-o até nas reuniões noturnas a bordo do Alagoas,  fruto de sua extraordinária erudição, quando falava acerca da educação no Brasil, resquício de seu  aprendizado junto ao seu tutor José Bonifácio de Andrada e Silva, à sua aia Mariana de Verna (Condessa  de Belmonte e verdadeira mãe de criação) e ao negro Rafael, veterano da Guerra Cisplatina, amigos  fidedignos de Pedro I, e que forjaram e aprimoraram a gigantesca vocação educacional do órfão.  

Ao olhar-se o continente Brasil pelo calidoscópio da temporaneidade, constata-se que a  educação nacional regrediu com relação aos patamares de adequação às realidades tecnológicas e  desenvolvimentistas do mundo moderno.  

Uma minoria seleta estudava Medicina em Montpelier, na França; outra falange era encaminhada  à Universidade de Coimbra, a fim de aprender o universo do Direito. 

Os seminários, verdadeiras forjas humanísticas, a feitio do Seminário de Olinda, começaram a  declinar, até nossos dias, gerando uma diminuição dos corpos docentes com qualidade. 

O bacharelismo inócuo, voltado aos mestrados, doutorados e pós-doutorados de meandros  filosóficos e similares, de inconteste ausência de efetividade laboral e tecnicista, tem seus licenciados  a medrarem pelas ruas à busca de empregos, senão pela luta de um serviço público caótico e defasado  da realidade trabalhista de um mundo em convulsão. 

A atividade de Uber e congêneres, específicas de motoristas e motociclistas, são ocupadas por  advogados, filósofos, bacharéis de cursos aleatórios, sem perspectivas de ganho rentável.  

A educação no Brasil está defasada há um século da realidade mundial, e permanece à busca de  cabides de emprego no caótico serviço público, onde a meritocracia não é valorizada. 

A repetência é considerada inaplicável, a gerar bacharéis de duvidosa qualificação e a inverter o  vértice piramidal do valor do ensino, inclusive para ingresso na Suprema Corte, em que são necessários  notável saber jurídico e ilibada vida pregressa. 

Muitas universidades não deveriam ser fabriquetas de diplomas! 

A Alemanha crê em institutos federais, em think thanks, em centros de excelência da gnose  humana, voltadas a qualificar mão de obra consentânea com a inteligência artificial. 

O Programa Internacional de Avaliação de Ensino – PISA, inserto na OCDE, colocou o Brasil  na 5ª posição do ranking mundial de leitura no âmbito das escolas particulares, enquanto as escolas  públicas ficaram na 65ª posição, entre 79 países avaliados.  

Vivemos dias pandêmicos e irreais, à mercê do incognoscível! 

Da Redacao

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