José Carlos Gentilli – Escritor, Membro da Academia de Letras de Brasília, da Academia Brasileira de Filologia e da Academia das Ciências de Lisboa

“Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore infranto. Ridi del duol che t´avvelena il cor.” (Ria, Palhaço, em seu amor em pedaços. Ria da dor que lhe envenena seu coração.) – Ruggero Leoncavallo.

Vivemos tempos circenses. Não aqueles da era romana, do circus romanus, dos cristãos lançados às feras, dos gladiadores, das bigas em certames dantescos, dos imperadores com seus poderes de vida e morte, bastando uma versão do movimento do dedo polegar, indicativo para baixo ou para cima, a fim de que salvaguardas acontecessem.

Tempo áureo do panis et circus, que abrandavam e alegravam a plebe ignara com a rudeza humana, ou seja, o morticínio e suas gradações.

Continuamos a viver tempos circenses. Não aqueles dos circos de lona, em seus primórdios, quando o palhaço anunciava a chegada do circo na cidade, bradando: “Hoje tem marmelada? Tem sim senhor! Hoje tem goiabada? Tem sim senhor! E o palhaço o que é? É ladrão de mulher!”

Com esse bordão se anunciava a chegada do circo e as feministas não reclamavam! Ao contrário, adoravam o bufão. Sempre houve goiabada, marmelada e, agora, pizza.

Aliás, as mulheres sempre foram roubadas, desde as sabinadas romanas, quando elas eram consideradas res, lamentavelmente.

O roubo sempre foi algo atávico, institucional no Brasil, até quando o povo resolveu dar um basta e elegeu, democraticamente, um brutus diplomático, que não rouba e não deixa roubar, que tem gerado hordas de insatisfeitos, que medram no universo administrativo das finanças públicas, desde a colonização.

O senatus, agora se escreve com letra minúscula!

Os jurisconsultos do Direito Romano, responsáveis pelo estudo das leis e dos tratados, eram personagens ilustrados e cultos, ao contrário da Suprema Corte do país, que abriga partícipes que sequer conseguem galgar um cargo da magistratura brasileira, desqualificados perante os ditames da Lex Fundamentalis, em seu artigo 101, que determina sejam os onze membros escolhidos entre pessoas de “notável saber jurídico e reputação ilibada.”  

Hoje, um verdadeiro areópago do Fórum de São Paulo!

Volto ao passado recente e relembro o que significa ter sido aluno de Aliomar Baleeiro, de Victor Nunes Leal, de Hermes Lima, de Luis Recasens-Siches, de Miguel Reale, de Franco Montoro, de Francisco Rezek, de Ayres Britto, de Carlos Velloso e dos notáveis juristas Quisleu Dias Maciel, Ronaldo de Brito Poletti, Inocêncio Mártires Coelho e do celebérrimo ex-Ministro da Justiça – Armando Falcão –, de quem fui assessor. 

Que saudade do Direito!

Busca-se nos ensinamentos de Henri Louis Bergson, filósofo judeu, Prêmio Nobel de Literatura, homem da intuição e estudioso do inconsciente, do impulso vital (élan vital), esta mensagem bergsoniana, que afirma:

“Nada é menos do que o momento presente, se entendermos por isso o indizível instante que separa o passado do futuro.”

Ilustres pagliacci do atual Circo Pandêmico, aprendam com Leoncavallo e “riem da dor que lhes envenena seus corações”, e não se olvidem de Bergson: 

“O riso é a mecânica aplicada no ser vivo.”

Até 2022, o tempo dirá!