A humanidade, em 1744, viu nascer na Oficina de Martinho Schagen, em Amsterdam, edição  de obra composta em 1652 (edição princeps), dita de autoria do Padre Antonio Vieyra (1608 a 1697),  Zeloso da Pátria, intitulada Arte de Furtar, Espelho de Enganos, Theatro de Verdades, Mostrador de  Horas Minguadas, Gazua Geral dos Reinos de Portugal. 

A Arte de Furtar, independentemente de sua real autoria, hoje atribuída ao jesuíta Manuel da  Costa, vivente de 1601 a 1667, constitui emblemática obra literária lusitana, que veio a lume após  quase um século de sua criação. 

Naquela época, século XVII, afloraram outras artes: a Arte de Navegar (1606); a Arte do Canto Chão (1618); a Arte de Orar (1630); a Arte de Reinar (1643) e, finalmente, a Arte de Furtar (1652), que  exime, convenientemente, os monarcas e seus ministros, de qualquer aleivosia procedimental. 

A Arte de Furtar assesta, como alvos, as castas grupais de militares, dos clérigos, dos nobres e  da burguesia, e reza que o rei deveria impor-lhes “o castigo que merecem”, numa visão política com  razões de Estado. 

A Inquisição, sob a égide da Igreja e do Rei, estava isenta de acusação de roubo, quando se  apoderava dos bens dos hereges judeus, capitulando o autor como – “Dos que furtam com unhas  bentas”.

A Guerra da Restauração (1640 a 1668), período conflituoso entre Portugal e Espanha, ensejou o  retorno do mando lusitano, com a figura de D. João IV, o qual substituiu o poder espanhol, até então  vicejante. Busca da riqueza, volúpia pelo ouro e pela prata, esplendor da gnose da auri sacra fames, que  encontrava a oposição do orador Antonio Vieira e de Manuel da Costa, jesuítas, ferrenhos defensores  das civilizações indígenas, do fim da escravatura e da extinção da pena de morte. 

Líderes incontestes, visionários de uma época, inteligências a serviço de um mundo justo e  perfeito, que navegavam, com o manto da Companhia de Jesus, pelos meandros obscuros do poder  temporal, a mostrae aos detentores de hierarquias monárquicas a real grandeza crística, a ofertar às  gerações futuras a monumental criação – a Arte de Furtar. 

Surgente a época, de forma disfarçada, sem as licenças eclesiais, vedatórias da imprensa livre  (mesas censórias), sempre sob o condão explicativo de “emendadas de muitos erros”, tinha o cuidado  de não atingir os monarcas, até então ungidos aos páramos celestiais. Assim, de forma subliminar,  planfetária nas entrelinhas, esgueirando-se suas assertivas pelas esquinas furtivas das inteligências  ledoras, a Arte de Furtar traz em seu bojo a ancestralidade do ato de furtar no processo civilizatório. 

Lembrem-se que o Oitavo Mandamento – NÃO FURTARÁS (Êxodo 20:15) – exalta a vedação  desta prática, e encontram-se registros de passagens bíblicas, no Livro dos Números (capítulo 17-18),  onde consta haver Miquéias roubado de sua mãe 1.100 moedas, fato que ensejou a ela amaldiçoá-lo. O  Islamismo, por sua vez, mandava cortar a mão do ladrão, a título exemplificativo e punitivo. 

Etimologicamente, furto promana do latim furtum, que significa objeto roubado, roubo,  salientando-se que fur é ladrão, vocábulo vinculado ao Diabo, por ser ele um ladrão de almas. 

O furto é elemento visceral da corrupção, que estigmatiza as sociedades através dos tempos, como  um câncer comportamental, dizimando padrões éticos e morais. 

Na Terra de Pindorama, desde os tempos de sua descoberta, os poderes públicos e privados, já  durante a implantação das Capitanias Hereditárias, encontravam-se imbricados, como um Nó Górdio,  onde os interesses guardavam uma comunhão indissolúvel, desde que a parte do Rei fosse resguardada,  numa visão institucional do Regime Antigo. 

Até a Igreja e o Reino, sob a formatação do Padroado, resguardavam seus interesses sob o apanágio  do Criador, guindado a protetor pretoriano do Novo Mundo, senhor dos gentios e dos seus recursos  da pecúnia. 

Na chegada do Príncipe D. João ao “Brazil”, então colônia, em 1808, a fugir do poder napoleônico,  acompanhou o Regente verdadeira malta reinol, rebutalho administrativo lisboeta, pontificada pelo  guarda-livros Francisco Bento Maria Targini, mais tarde Visconde de São Lourenço, exemplo maior da  ocorrência da corrupção e impunidade nas altas esferas do poder público, títere da mercancia inglesa. 

À época, o povo sempre sábio, declamava esta quadrinha, alusiva aos desmandos. 

 Quem furta pouco é ladrão. 

 Quem furta muito é barão! 

 Quem mais furta e mais esconde, 

 Passa de barão a visconde.

Outra, dizia: 

Furta Azevedo no Paço. 

Targini rouba no Erário. 

E o povo aflito carrega 

Pesada cruz ao Calvário. 

O Correio Braziliense, de saudosa memória, independente da subserviência governamental, pela  pena cáustica e honrada do jornalista Hipólito José da Costa, indignado com a corrupção de Targini,  legou-nos esta exemplaridade: 

“Se a habilidade de um indivíduo em aumentar suas riquezas fosse por si só bastante para  qualificar alguém a ser administrador das finanças de um reino, sem dúvida Targini, barão do que  quer que é que não nos lembra, devia reputar-se um excelente financista.” 

Novos tempos, novas gentes! Todavia, a corrupção brasileira, ocupa o 72° lugar na lista da  organização Transparência Internacional, conquanto o Mensalão representasse, apenas, a ponta de  um iceberg que flutuava nas águas oceânicas sob o comando da Petrobras, afirmava-se em 2014. 

Os homens probos desta nação se perguntam quantas gerações serão necessárias para extirpar este  cancro insidioso, que permeia a sociedade brasileira e avilta a população com os mais escorchantes  impostos do planeta, sem retorno societário. 

O Presídio da Papuda, pequena ilha prisional que recebe os condenados pela Suprema  Corte, hospeda a falange dos Targini, cujas sentenças condenatórias em segundo grau, vão sendo  modificadas pela Suprema Corte do país, que se arvora acima da Carta Magna e contrária aos ditames  constitucionais, coadunando-se aos preceitos do Fórum de São Paulo, à mercê de indizíveis prenúncios  político-partidários e ideológicos. 

Diariamente, informam-nos que novas levas se avizinham, adensadas pelas lupas dos organismos  policiais, dos setores do Ministério Público e da imprensa livre, restrita, mas coadjuvada pela  incontrolável falange da internet, interligada por uma rede de 272 milhões de celulares, em tempo  real, independentemente de classes, cor racial ou partidos políticos. 

O tempo tem ciclos sucessivos, antagônicos ou não, a formatar o processo civilizacional. 

Após período supressivo dos direitos humanos, vivenciou-se o apogeu da ditadura malsã da  corrupção institucional em todos os níveis e poderes, cujo processo de restauração encontra resistência  da mais malévola ditadura, qual seja a do universo do Judiciário, como afirmava Rui Barbosa – a  Águia de Haia.  

Na arte de furtar, o furto é produto e fim na cadeia genética da corrupção. 

* José Carlos Gentili 

jornalista.