José Carlos Gentilli – Escritor, Membro da Academia de Letras de Brasília, da Academia Brasileira de Filologia e da Academia das Ciências de Lisboa

O que é o ser humano na Terra? Gênese do quê? Real presunção do ignoto? 

Quando foi que os humanoides começaram a pensar? Metamorfose do nada?  Princípio da Criação? 

Intuição, instinto de preservação, compreensão societária, defesa grupal,  desenvolvimento da cerebração, transmutação de espécies, adaptação ao meio ambiente,  são mil conjecturas que permeiam teorias, cada qual a trafegar no universo telúrico,  durante milênios, acerca dos quais restam apenas as ossadas dos dinossauros, elementos  táteis, a marcar uma época do jurássico.  

Dentre os milhares de incontáveis seres humanos, pinço a figura de uma inteligência,  da Grécia Antiga, a iluminar Platão, Aristóteles, Aristófanes e uma plêiade de pensadores  que povoaram a Antiguidade, que foi Sócrates (470 a.C.-390 a.C.), considerado por  Pítia – sacerdotisa do Oráculo de Delfos -, como o mais sábio de todos os homens.

Afirmava, sempre, – só sei que nada sei -, ideário que o transformou num símbolo  filosofal, a motivar jovens de sua época, verdadeiro ícone do pensamento reflexivo. 

A arte de perguntar!  

A sabedoria e a virtude são inseparáveis, a conduzir ao entendimento da imortalidade  da alma. Assim, antes de morrer, ensinou que no outro mundo poderia fazer quaisquer  perguntas sem receio da morte, uma vez que a alma era imortal. 

Por não acreditar nos deuses helenos, por ser acusado de corromper a juventude  com suas ideias, por orientar o povo a pensar e questionar regramentos, foi condenado  à morte, a ingerir cicuta, caso não se retratasse de seus ensinamentos.  

O ateniense Conselho dos Quinhentos permitia a retratação, mas Sócrates não se  desdisse! 

Era seu entendimento que somente descobrimos a verdade pelo uso da razão, que  se consolidou entre os homens como pensamento socrático. Neste exercício, a ironia e  a maiêutica são fundamentais, porquanto à primeira cabe a interrogação com múltiplas  indagações; já, na segunda propositura, o parturejar do conhecimento busca a verdade. 

A cicuta (conium maculatum), a beladona (atropa belladonna L), o acônito (aconitum  napellus), são venenos (akoniton – planta venenosa) poderosos, extraídos de plantas,  há milênios. O arsênico, o mercúrio, o polônio têm origem mineral. Atualmente, o  remédio CAPTROPIL, utilizado para a tensão arterial, é extraído do veneno da nossa  jararaca (bothrops jararaca), chamada pelos guaranis de yara´raka, portanto procedente  do reino animal. 

Afirma-se que a diferença entre o veneno e o remédio está na dose! 

Sócrates, antes de beber a tisana de cicuta, em meio aos jovens liderados por Críton,  que foram tentar dissuadi-lo e alegaram bastar uma retratação, reafirmou que jamais  abandonaria a pregação da Ética, da visão da imortalidade da alma (anima) e a busca  da autonomia moral do ser humano. 

Antes da execução, disse: 

“Críton, somos devedores de um galo a Asclépio; pois bem, pagai a minha dívida.  Pensai nisso!” 

*José Carlos Gentili. 

Um eterno aprendiz.