Os estudantes vão sem máscara até a porta da escola, colocam só na hora de entrar e na saída a retiram de imediato

Tatiane Oliveira – Brasil de Fato

Se eu adoecer ou morrer, a culpa é do Estado.

Sou professora da rede estadual de ensino de São Paulo e, como meus companheiros e companheiras, fui obrigada a voltar presencialmente para a escola. Estamos com muito medo e aflitos, diariamente, pois na nossa realidade, mesmo recebendo os 35% dos alunos, atendemos diariamente cerca de 150 estudantes!

É impossível fazer com que as crianças e adolescentes respeitem em sua totalidade os protocolos de segurança. Toda hora alguém diz “põe a máscara”, “arruma a máscara”, “desgruda gente”…

Os estudantes vão sem máscara até a porta da escola, colocam só na hora de entrar e na saída a retiram de imediato 

Os estudantes vão sem máscara até a porta da escola, colocam só na hora de entrar e na saída a retiram de imediato. Muitos dos responsáveis que vão buscar os estudantes também não a usam. Só quem não trabalha na educação, e desconhece a realidade sucateada das escolas públicas, mantém o discurso ilusório de que o retorno presencial daria certo. Na prática, não tem dado. 

É impossível controlar o empréstimo de materiais entre alunos e, muitas vezes, até nós esquecemos e emprestamos um lápis ou nos aproximamos das carteiras para explicar algum conteúdo. Afinal, o processo de ensino-aprendizagem se faz assim, com troca e proximidade.

Nos deparamos com tristes relatos de escolas que receberam álcool em gel vencido ou com teor alcóolico abaixo de 70% (só 70% é capaz de matar o vírus). Outras que na primeira semana do retorno presencial possuíam papel toalha e outros itens de higiene, agora que o retorno não é mais novidade, não há esses itens na escola. Há escola que mesmo sem água seguiu em funcionamento!

Em relação à limpeza, a situação não é melhor. A maioria das escolas tiveram suas equipes reduzidas no último período. As equipes não foram recompostas para garantirmos os protocolos de segurança. Ou seja, além de estarmos inseguros, as trabalhadoras (grande maioria são mulheres) estão sobrecarregadas.

Seguimos com nossos quadros de profissionais da educação insuficientes para a demanda do dia a dia, pior ainda em meio a uma pandemia. 

As escolas sequer receberam pessoal de apoio para o controle dos protocolos. Seguimos com nossos quadros de profissionais da educação insuficientes para a demanda do dia a dia, pior ainda em meio a uma pandemia.

Estamos com dificuldades para dar aula. A nossa função pedagógica foi trocada por fiscal de protocolo que não funciona. A profunda insegurança em que estamos imersos pelo descontrole da pandemia não propicia um ambiente pedagógico adequado. Temos medo de morrer e de contaminar outras pessoas. Não há sensação de segurança e estabilidade no ambiente escolar.

Todos os dias recebemos notícias do falecimento de professores e professoras, de funcionários e infelizmente, também de alunos. A mídia não tem divulgado como deveria o número de casos da covid-19 dentro das escolas, e as próprias diretorias de ensino têm falhado nesse acompanhamento.

A APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) já contabilizou 1861 casos de contaminação em 850 escolas estaduais (dados de 04 de março de 2021).

Com muita tristeza, chegamos a 89 mortes de professores entre a rede estadual e municipal de São Paulo nesse curto período de retorno das aulas presenciais. Vale ressaltar que são mortes que poderiam ser evitadas com o ensino remoto emergencial. São mortes evitáveis!

As escolas que registraram casos entre funcionários e professores se limitam a afastar quem está com os sintomas e suspender o período (horário) em que a pessoa contaminada esteve, sem “afetar” o bom funcionamento da unidade escolar. Isso quando a escola fala abertamente à sua comunidade escolar o porquê as aulas foram suspensas.

Agora com a educação sendo considerada “serviço essencial”, seguimos ladeira abaixo. O que de fato é essencial se não a vida? A saúde e a segurança dos estudantes e servidores públicos não são prioridade?

Doria e Rosieli com um discurso manso e manipulador insistem em nos expor à morte diariamente 

Doria e Rosieli com um discurso manso e manipulador insistem em nos expor à morte diariamente. Não temos leitos, não temos vacinas, e a esperança? Estamos a um passo de perde-la.

Quantos mais de nós vão precisar morrer? Quantos estudantes, funcionários e professores??? Será mesmo que, com os vários exemplos mundiais, São Paulo achou que iria ser o “alecrim dourado do campo que nasceu sem ser semeado” e não iria viver toda essa tragédia?

Espero que este texto seja apenas um desabafo e não um testamento!

Você que é pai e mãe dos nossos estudantes, não mandem seus filhos para a escola! A coisa toda só piora, então, se preservem e cuidem dos seus!

E que Deus, Buda, todos os orixás e a divindade que preferir, nos ajudem! Porque se depender do Estado, separem as velas.

*Tatiane Oliveira é Professora da rede estadual de São Paulo e integrante do coletivo Educadoras e Educadores do Projeto Popular

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial DE NOSSO BLOG.

Edição: Rebeca Cavalcante