RAY CUNHA raycunha@gmail.com

RAY CUNHA, DE BRASÍLIA –De repente, o mundo amanhece numa ditadura chinesa, os shoppings estão fechados, os estudantes sumiram das ruas, o Parque da Cidade está deserto. Olho pela janela e vejo a manhã nua, não ouço nenhum riso de criança, e somente, aqui e ali, a nudez da manhã é quebrada por um velho, ou uma moça, conduzindo cachorros, o saco para recolher cocô numa das mãos, impondo à manhã mais solidão ainda.

E me dou conta de que não há nada a fazer. Então, viajo para dentro. Trabalho, todos os dias, em novo romance, que, neste momento, é como um trem de alta velocidade que tomo a cada manhã; às vezes, ele se transforma em um Boeing.

Hoje, arrumei minha estante. A prateleira dos livros para ler ampliou-se. Nela, há de tudo: de Joseph Conrad a medicina tradicional chinesa, passando pela Fisiologia do Comportamento, de Neil R. Carlson, a Malabar Azul, de Isnard Brandão Lima Filho.

Há também uma entrevista com Paulo Coelho na Playboy de agosto de 2008 e o Anuário Brasileiro de Pesca Esportiva de 2013, no qual quero reler sobre o maior marlim azul do mundo, que foi capturado na costa do Espírito Santo. São dezenas de livros, incluindo a Bíblia e Bhagavad-Gita, além dos que estou lendo ao computador.

Não leio por obrigação. Acho que leio um pouco por compulsão, porém mais por prazer, pois descobri, ainda cedo, que a vida é mental, que a experiência dos sentidos é quase sempre fugaz, exceto quando sentimos com o coração, como o primeiro beijo, que é como as rosas, pode até ser destruída, esmagada, mas a sensação dela na alma é para sempre.

Se nos sentimos felizes, bastamo-nos a nós mesmos, e não sentimos saudade dos amigos que se foram para Cuba, nem das grandes livrarias, nem do mar. Se nos sentimos felizes, tudo isso está dentro de nós.

Lá fora, há várias guerras. Uma, se trava contra o coronavírus; outra, contra os assaltantes soltos pelo Supremo Tribunal Federal; outra ainda, contra os traidores da pátria, um enxame mais voraz do que o dos vírus.

Às vezes, ouço música, inclusive Beatles, Amira Willighagen e Angelina Jordan, e, certamente, música caribenha. Depois do infarto, reduzi tudo o que pude em açúcar, e quase não janto mais. De vez em quando, estudo medicina tradicional chinesa. E acontece de eu atender um ou outro paciente.

Li, recentemente, todos os Stieg Larsson, David Lagercrantz, Dan Brown e sete Luiz Alfredo Garcia-Roza, reli Os Tempos Insanos (My friend Mundico), de Fernando Canto, e visitei o Copacabana Palace e o Condomínio Chopin, na Avenida Atlântica, Rio de Janeiro, onde se passa um pouco meu próximo romance.

Mantenho-me ligado, também, ao artista plástico Olivar Cunha. Visitava-o quando estourou o coronavírus, mas deu tempo de batemos perna pelo litoral do Espírito Santo antes que as coisas ficassem feias.

No Sudoeste, em Brasília, a noite feérica foi substituída pelo silêncio e as manhãs se transformaram em luz. Se me canso de ler, assisto a um documentário sobre a África ou, se tenho sorte, um John Wick, com Keanu Reeves. Sem Tempo Para Morrer, com Daniel Craig e Léa Seydoux, está prometido para setembro. Léa Seydoux é maravilhosa.

Reconheço que nestes tempos de quarentena alguns são privilegiados. Mas só temos o que merecemos. Alguns contam com a geladeira cheia de comidas gostosas e podem, de madrugada, ou em outras horas do dia, ouvir gemidos de rosas, sons de luz, que se diluem entre as estrelas, e, se for dia, misturam-se ao sol.