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RAY CUNHA, DE BRASÍLIA – Os dois principais intelectuais da Amazônia, o jornalista e ensaísta paraense Lúcio Flávio Pinto e o ficcionista e ensaísta amazonense Márcio Souza, volta e meia reclamam do tratamento que a capital do país dispensa à Amazônia: apenas tira, e que se dane o povo que vive lá. Com efeito, o que se vê, hoje, é que embora a Amazônia tenha se tornado a grande produtora de energia elétrica limpa do país, a maior parte da energia produzida é canalizada para outras regiões do país, enquanto muitas localidades do subcontinente ainda não contam com energia firme.

Também, o país também equilibra a balança comercial exportando minerais da Amazônia, como ferro e alumina, por exemplo. E o comércio clandestino na Hileia vai desde árvores, passando por ouro e pedras preciosas, até mulheres e crianças, traficadas geralmente para escravidão sexual.

A Amazônia é a maior província biológica, mineral e fitoterápica do planeta, mas os amazônidas são vistos pela capital do país como subespécie, como os paus-de-arara nordestinos em São Paulo e no Rio de Janeiro.

A revolução da Cabanagem mostra bem isso. Mas mostra também que os cabanos, quando se viram no poder, não sabiam o que fazer. Assim, Lúcio Flávio Pinto e Márcio Souza têm razão, também porque a Amazônia é o que é devido à sua elite.

O amapaense Davi Alcolumbre (DEM/AP), penúltimo presidente do Senado da República, gastou dois anos fazendo uma política de quintal. Esta semana, foi eleito presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ); no seu discurso de posse, disse que agora teria mais tempo para se digladiar contra seus detratores, que o acusam de ter passado dois anos protegendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), engavetando pedidos de impeachment com acusações robustas.

Outro, também ligado ao Amapá, que poderia ter feito uma política amazônica, foi o ex-presidente José Sarney. Corrido do Maranhão, seu estado natal, Sarney saltou de paraquedas em Macapá, a capital do Amapá, que o elegeu senador perpétuo; ele só largou o osso porque não tinha mais energia para isso.

O que fez Sarney? Além de ter anexado o Amapá como quintal do Maranhão, atraiu para Macapá, com a história de uma zona franca de quinquilharias, uma migração insustentável. Resultado: Macapá, que não tem um metro de esgotamento sanitário e é tratada pelos prefeitos e governadores como aquelas vacas que passam a vida amarradas, com as tetas cheias de pus de tão inchadas, se tornou uma das cidades mais violentas do país.

A propósito, Macapá se tornou famosa até no Sul, pelo apagão que sofreu recentemente, já que suas instalações elétricas são uma piada de mal gosto. As trevas somadas ao vírus chinês, matou igual na guerra.

Quanto a Cabanagem, como se sabe, em 22 de abril de 1500, Pedro Álvares Cabral, chega a Porto Seguro, na Bahia. Nas décadas seguintes, a Coroa Portuguesa tratou de garantir a posse das terras no Novo Mundo, distribuindo capitanias hereditárias a membros da nobreza. Mas somente as capitanias de Pernambuco e de São Vicente (São Paulo) prosperaram. Em 1549, Portugal cria o Estado do Brasil, com um governo-geral sediado em Salvador, e, em 1763, no Rio de Janeiro.

Mas, em 1621, durante o domínio espanhol, Filipe II de Portugal (Filipe III da Espanha) dividiu a colônia portuguesa em duas: o Estado do Brasil, que abrangia de Pernambuco até a atual Santa Catarina; e o Estado do Maranhão, do atual Ceará até a Amazônia, com a capital em São Luís, e, a partir de 1737, em Belém, quando o Estado do Maranhão passou a ser chamado de Grão-Pará e Maranhão. Então, era mais fácil navegar de Belém para Lisboa, vice-versa, do que de Belém para Salvador, vice-versa, devido aos ventos.

Em 1823, Dom Pedro I anexa o Grão-Pará e Maranhão ao Império do Brasil. Em 1835, explode uma revolução em Belém, a Cabanagem, estendendo-se, até 1840, para toda a Amazônia. A resposta do Império do Brasil foi de uma ferocidade que até hoje causa ressentimento.

Influenciada pela Revolução Francesa, a Cabanagem eclodiu devido à pobreza, fome e doenças na Amazônia, principalmente entre índios e mestiços que viviam em cabanas à beira dos rios, verdadeiros escravos da elite branca. Liderados por integrantes da classe média alijada pelo Rio de Janeiro desde a Independência, tomaram o poder em 6 de janeiro de 1835.

Trocando em miúdos: o Estado do Grão-Pará reportava-se diretamente à Lisboa. Quando o Estado do Brasil proclamou a independência, Dom Pedro I anexou a Amazônia ao Império do Brasil, desprezando a elite paraense que se reportava diretamente à Lisboa. Abandonada, já que agora não contava mais com Portugal, a população começou a passar necessidade. Então revoltou-se contra o Brasil, numa tentativa de se unir novamente a Portugal.

Mas, sem planejamento, os cabanos permaneceram no poder apenas dez meses, quando Belém foi bombardeada sem só nem piedade; segundo os historiadores, as tropas do Império do Brasil reduziram a população belenense, de 100 mil habitantes, quase pela metade.

Isso se tornou um emblema. O Rio de Janeiro e, depois, Brasília, tem governado de costas para a Amazônia. Mas a tragédia nem é isso; consiste em que a elite da Hileia só defende, com unhas e dentes, o próprio pirão. Aí nem jacaré aguenta.

Pior é que as vozes que se levantam geralmente beberam também na fonte da Revolução Francesa e hoje se tornaram fabianos, ecologistas radicais, do tipo que quer que a floresta e os animais fiquem intocados e aos ribeirinhos seja permitido comerem apenas folha de árvore. Como diz o coronel Gélio Fregapani, mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva:

– A Amazônia será ocupada, por nós, ou por uma ou mais potências estrangeiras!