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RAY CUNHA, DE BRASÍLIA – Tomei o ônibus no fim da Avenida Comercial Sul, em Taguatinga, com destino ao Cruzeiro Novo. Era em torno de 11 horas, um sol de amolecer o asfalto, o motorista irritado com o calor e o congestionamento. A frota do Distrito Federal está em torno de 2,5 milhões de carros e as vias urbanas são poucas. E sabe como são os ônibus de algumas linhas em Brasília, sucateados e imundos. O resultado já se viu. Falar nisso, acho que o trânsito em Taguatinga é um dos piores do mundo, até mesmo do que na minha cidade natal, Macapá, onde as ruas lembram a Lua, a sinalização é só para especialistas na decifração de códigos secretos e a fiscalização, zero.

Elas entraram no ônibus no último ponto da Avenida Central, que separa Taguatinga em norte e sul. Eram três. Duas pareciam gêmeas. Aboletaram-se no banco à minha frente, as três. Cariocas. Para mim, não há sotaque mais agradável do que o belenense, que soma a musicalidade do linguajar lisboeta, o indefectível tu, com a doçura do tupi e de África, e o sabor de espilantol da Linha Imaginária do Equador.

Na mesma prateleira do sotaque belenense, guardo, no coração, a melodia do falar carioca. Quando jovem, vivi em Copacabana. Costumava frequentar a biblioteca pública do bairro; às vezes, punha de lado a viagem virtual que estava empreendendo para escutar a conversa das estudantes nas mesas ao meu lado, e punha-me a ouvir a musicalidade do falar da Zona Sul na voz daquelas doces criaturas.

Suas vozes me lembram, hoje, certas músicas que curam câncer, como a Nona Sinfonia de Beethoven. Segundo a análise que fiz, a coisa funciona mais ou menos assim: a frequência de certos timbres, melodias, harmonias, como a paleta de Vincent van Gogh, regulam as glândulas hormonais; então, elas começam a produzir a porção exata dos diversos hormônios necessários ao funcionamento pleno do organismo, que, em harmonia consigo mesmo, expele as células cancerosas.

O fato é que eram três cariocas. Lindas. São necessários olhos clínicos e pureza para vermos, realmente, o belo. “Os olhos são cegos. É preciso ver com o coração” – disse Antoine de Saint-Exupèry. Ele tem razão. Praticamente não enxergamos com os olhos cerebrais. Danados são praticamente cegos; no mergulho suicida no vício, não sentem o agora e o agora, o momento mesmo da vida. São mortos-vivos.

Elas eram lindas, do tipo que os vampiros, quando veem mulheres assim, rejuvenescem. Vampiros são zumbis; sugam vida de mulheres jovens e lindas. Aproximam-se delas, aproveitando aglomerações, e aspiram-lhe o perfume, ouvem-lhes a voz, lambem-lhes com olhos de lâmina, e quando têm oportunidade, tocam-nas, e se logram as ter, sugam-nas até o caroço. São hienas que se alimentam do belo.

As gêmeas eram as mais lindas. A primeira coisa que saltava aos olhos era sua pele, alva como um sorriso de criança, e macia como jambo maduro (os olhos podem desenvolver o tato). Eram altas e trajavam shortinhos, expondo pernas maravilhosas ao escrutínio literário, sempre explorador. Seus olhares eram oblíquos, doces e misteriosos como o das mulatas de Di Cavalcanti, e paradoxalmente agitados como o mar de ressaca, numa certa manhã de inverno em Copacabana. A terapeuta Aline Nolasco sabe o que estou dizendo, pois domina as chaves dos olhos para o mergulho na alma.

As gêmeas levavam nas orelhas os cabinhos ligando os ouvidos aos seus telefones e de vez em quando uma delas manejava o telefone com os polegares, regulando sua vida virtual. A que não era gêmea usava piercing, desses que lembram uma pequena verruga, no nariz, e cuidava das unhas. Conversavam, e creio que se entendiam mais por uma questão tácita do que pelo som propriamente dito, já que o ônibus sucateado resfolegava ao trânsito impossível e ao calor delirante.

Desci próximo ao Terraço, no Cruzeiro Novo, e entrei no shopping para tomar um espresso. O Terraço é bastante agradável. Logo à entrada, no átrio principal, começamos a ver mesas espalhadas nos corredores. Frequento o Victória Café, que disponibiliza confortáveis mesas e cadeiras de vime (palhinha, como dizemos em Macapá). O blend é quase sem grãos tipo arábica e a colherzinha, de plástico, o cafezinho acompanhado de água mineral com gás, geladinha, e um biscoitinho. O dióxido de carbono da água gaseificada serve para limpar as papilas gustativas e proporcionar, assim, a degustação dos mais de mil tipos de moléculas do café, e o biscoito, ou chocolate em barra, valoriza o serviço prestado pela cafeteria.

Em casa, mergulho na tarde, largo rio de planície, lento na sua caminhada, sem pressa na penetração em outro rio, ou no mar. Gosto mais ainda de certo momento da tarde, na sua agonia, quando flocos noturnos começam a cair, e nos damos conta de que a noite chegou de repente, como um navio iluminado.