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RAY CUNHA raycunha@gmail.com

RAY CUNHA, DE BRASÍLIA –Mario Vargas Llosa começou a ganhar o Nobel em 2000, quando publicou A festa do Bode (La fiesta del chivo, Alfaguara/Objetiva, Rio de Janeiro, 2011, 450 páginas), romance baseado na ditadura de Rafael Leónidas Trujillo Molina, o Bode, de 1930 a 1961, na República Dominicana, país que divide com o Haiti uma das ilhotas do Mar do Caribe, Hispaniola, primeiro território americano a ser descoberto por Cristóvão Colombo.

Ernest Hemingway escreveu, no prólogo de Paris é uma Festa, que a ficção pode sempre iluminar com luz nova coisas que antes foram narradas como fatos. Neste romance, Llosa disseca a mecânica da mente do ditador, qualquer um deles, que é aquele que persegue o poder absoluto; poder, que, paradoxalmente, será sempre o inferno pessoal do ditador.

Resultado: todos os ditadores, incluindo os que gostariam de sê-lo, são, em potencial, assassinos, torturadores, estupradores, ladrões, bestas crudelíssimas, feras perversas, mentirosos, profundamente covardes, diabólicos. Como se diz em psicologia: psicopatas. Chegam ao poder porque são ousados, e maus, e porque se cercam de preguiçosos, ávidos por carniça. Temos exemplo no Brasil.

A festa do Bode: “Ele a segurou pelo braço e deitou-a ao seu lado. Com movimentos de pernas e de cintura, montou sobre ela. Aquela massa de carne a esmagava, afundando-a no colchão; o bafo de conhaque e a raiva lhe davam náuseas. Sentia seus músculos e ossos sendo triturados, pulverizados. Mas nada disso impediu que notasse a rudeza daquela mão, daqueles dedos que exploravam, escavavam e entravam nela à força. Sentiu-se rachada, esfaqueada; um relâmpago percorreu seu corpo do cérebro aos pés. Gemeu, sentindo que ia morrer.

“Grite, sua cadelinha, vamos ver se você aprende” – cuspiu a vozinha ferina e ofendida de Sua Excelência. “Agora, abra-se. Deixe eu ver se está furada mesmo, se você não está gritando só de farsante que é.”

Creio que foi em 2006 que visitei meu amigo Walmir Botelho, em Belém do Pará. Ele era um dos leitores mais sem limites que conheci. Recomendou-me que lesse A festa do Bode. Já em Brasília, procurei o livro, mas estava esgotado. Llosa ganhou o Nobel em 2010 e logo depois as livrarias exibiam montes de livros dele.

Comprei A festa do Bode no dia 24 de dezembro de 2011 e terminei-o de ler no dia 12 de janeiro de 2012. Li-o à noite, em casa, ou no ônibus a caminho do trabalho. Desde o início, não dormi mais direito, passando, às vezes, a noite em claro, ou entrecortada de pesadelos. Às vezes, lendo-o, eu era possuído de indignação, e, também, sentia meus olhos umedecerem.

A festa do Bode: “Quando o castraram, o fim estava próximo. Não cortaram os testículos com uma faca, mas com uma tesoura, enquanto estava sentado no Trono. Ouvia risos hiperexcitados e comentários obscenos, de uns sujeitos que eram apenas vozes e cheiros ácidos, de axilas e fumo barato. Não lhes deu o prazer de ouvi-lo gritar. Eles lhe enfiaram os testículos na boca, e ele os engoliu, desejando que tudo aquilo apressasse a sua morte, coisa que nunca imaginou que pudesse desejar tanto”.

Até onde vai meu conhecimento literário, creio que na América do Sul há três monumentos, que podem ser colocados lado a lado na prateleira dos grandes: o argentino Jorge Luis Borges, o colombiano Gabriel García Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa.

Borges, porque transcendeu, na literatura, nosso grosseiro mundo físico; Gabo, porque pôs como ninguém no papel o que os europeus chamam de realismo mágico, que é apenas o Trópico; e Llosa porque é um construtor de catedrais.

A festa do Bode: “Duas ou três semanas depois, em vez do habitual prato fedorento de farinha de milho, trouxeram para o calabouço uma panela com pedaços de carne. Miguel Ángel Báez e Modesto quase engasgaram, comendo com as mãos até se fartar.

Pouco depois, o carcereiro voltou a entrar. Olhou para Báez Díaz: o general Ramfis Trujillo queria saber se não lhe dava nojo comer o seu próprio filho. Do chão, Miguel Ángel o insultou: “Diga a esse filho da puta nojento que engula a língua e se envenene”.

O carcereiro riu. Foi e voltou, mostrando pela porta uma cabeça juvenil que segurava pelos cabelos. Miguel Ángel Báez Díaz morreu horas depois, nos braços de Modesto, de um ataque cardíaco”.

A festa do Bode será sempre um alerta contra as ditaduras, como a de Fidel Castro, como a de Hugo Chávez Maduro, que, juntamente com sua família, já roubou tudo dos venezuelanos. Mas por que essas serpentes não caem? Porque, como a metástase, contaminam quase todo o país, sobrevivendo do cadáver.

Por isso é que não basta apenas eliminá-los – é necessário recomeçar tudo. O povo cubano, por exemplo, terá que enterrar, além dos ossos de Fidel Castro e quadrilha, também o comunismo cubano, que hoje é apenas nostalgia das viúvas. Ditaduras, sejam de esquerda (?) ou de direita (?), são uma coisa só: degradação humana.