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RAY CUNHA raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 8 DE FEVEREIRO DE 2021 – Um dos ícones do Rio de Janeiro, o Belmond Copacabana Palace, começa 2021 com novo gerente geral, o português Ulisses Marreiros, que tem mais de 20 anos de estrada na hotelaria internacional, como diretor geral do Belmond La Residencia, em Maiorca, Espanha, desde 2013; diretor geral do Belmond Reid´s Palace, na Madeira; e trabalhou em hotéis e resorts de luxo nas Maldivas, Índico, e em Portugal. Entra no lugar de Andrea Natal, que deixou o cargo em novembro do ano passado, após 18 anos comandando o hotel. 

Ulisses Marreiros é o novo comandante

É uma grande responsabilidade. O Copacabana é lendário, e é uma das joias do Rio. Mas pelos seu currículo, além da experiência, não será difícil para Ulisses comandar o ícone da hotelaria carioca. Ele é formado em gestão hoteleira pela Universidade do Algarve e fez vários cursos de liderança e gestão na Harvard Business School, Cornell University e Bocconi University, em Milão. Além disso, é do ramo mesmo: é apaixonado por gastronomia, e, de quebra, por esportes de ação. Mais: poliglota, Ulisses fala inglês, espanhol, italiano e alemão, além de português. 

O Copacabana fica no Posto 3 da Avenida Atlântica, construída em 1906, bordejando a praia mais famosa do Brasil, Copacabana. Com 239 apartamentos e suítes, o prédio principal e o anexo abarcam 11 mil metros quadrados. Virou celebridade por hospedar celebridades internacionais, por apresentar artistas famosos, pelos seus eventos disputadíssimos pela elite e por ser cenário de filmes. 

Em dezembro de 2018, o grupo Moët Hennessy Louis Vuitton SE (LVMH), holding francesa formado pelas grupos Moët et Chandon, Hennessy e Louis Vuitton, comprou o Copacabana e demais hotéis da rede Belmond por 3,2 bilhões de dólares, algo em torno de 12 bilhões de reais. Além do Copacabana são mais 25 hotéis de luxo. 

O Copacabana foi construído por Octávio Guinle e Francisco Castro Silva, entre 1919 e 1923, atendendo ao presidente Epitácio Pessoa (1919-1922), que queria um hotel que fizesse justiça ao Rio de Janeiro, visando hospedar os mais ilustres visitantes que viriam para a Exposição do Centenário da Independência do Brasil, evento realizado na esplanada do Castelo, em 1922. 

Em troca, o governo federal concederia incentivos fiscais e licença para um cassino, exigência de Octávio Guinle, que adquiriu um terreno na Avenida Atlântica, alargada em 1919 pelo engenheiro Paulo de Frontin. 

Para projetar o hotel, foi contratado o arquiteto francês Joseph Gire, que se inspirou no Negresco, em Nice, e no Carlton, em Cannes, na Riviera Francesa. O engenheiro da obra, César Melo e Cunha, utilizou mármore de Carrara e cristais da Boêmia em larga escala. 

Mas o hotel só foi inaugurado em 13 de agosto de 1923, após quase um ano da Exposição do Centenário, devido às dificuldades na importação de mármores e cristais e na execução das suas fundações, com 14 metros de profundidade, e, em 1922, uma ressaca causou danos ao prédio. Inaugurado, foi o primeiro grande edifício em Copacabana, cercado apenas por casas e mansões. 

Em 1924, devido ao atraso na execução do projeto, o presidente Artur Bernardes (1922-1926) tentou cassar a licença do cassino, mas após dez anos de disputa Guinle ganhou a causa na Justiça. Em 1934, o hotel ganhou uma piscina, projeto do engenheiro César Melo e Cunha, ampliada em 1949.

Mas em abril de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) proibiu o jogo no país, pondo na rua cerca de 40 mil trabalhadores. O cassino virou casa de espetáculo e o hotel passou por reforma, a cargo do arquiteto Wladimir Alves de Sousa, ganhando mais dois pavimentos e o anexo nos fundos, inaugurado em 1949.

Em 1960, com a transferência da capital para Brasília, o Copacabana entrou em decadência, e, em 1985, planejou-se sua demolição. Mas isso não se concretizou, e houve uma reviravolta. O prédio foi tombado nas esferas federal (Iphan), estadual (Inepec) e municipal (Sedrepahc). Em 1989, José Eduardo Guinle o vendeu para o grupo Orient-Express, hoje, Belmond, que, sem descaracterizá-lo, modernizou o prédio todo. 

Em 1956, o Copacabana ganhou um vizinho, o Edifício Chopin, em estilo modernista, projetado pelo arquiteto francês Jacques Pilon, e onde são realizadas as mais memoráveis festas da high society carioca. 

Além da beleza arquitetônica e do charme da história do Copacabana, ele é situado no bairro mais icônico do país e um dos mais conhecidos do planeta, a Princesinha do Mar, ou Coração da Zona Sul, onde acontece um dos mais famosos e disputados réveillons do mundo, reunindo mais de 2 milhões de pessoas de todo os quadrantes do planeta. 

Provavelmente do quíchua inca “lugar luminoso”, ou “praia ou mirante azul”, ou do aimará boliviano “vista do lago”, Copacabana é uma cidade às margens do Lago Titicaca, fundada sobre antigo sítio de culto inca a uma divindade chamada Kopakawana, protetora do casamento e da fertilidade. 

Diz a lenda que depois da chegada dos espanhóis à Copacabana boliviana, Nossa Senhora teria aparecido no local para Francisco Tito Yupanqui, jovem pescador, que teria esculpido uma imagem da santa, conhecida como Nossa Senhora de Copacabana. 

No século XVII, comerciantes bolivianos e peruanos de prata levaram uma réplica da imagem para a praia carioca, então chamada de Sacopenapã, do tupi “caminho de socós”, e, sobre um rochedo, construíram uma capela em homenagem à santa, demolida e no seu lugar construído o Forte de Copacabana, entre em 1908 e 1914. 

No fim do século XIX, a praia passou por uma limpeza e começou a ser procurada por famílias abastadas, e com o advento dos bondes e a abertura de túneis ligando a praia ao centro do Rio, Copacabana começou a ser frequentada pela população. O Túnel Velho, que atravessa o Morro de Vila Rica, foi inaugurado em 6 de julho de 1892, pela Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico, atual Light, ligando Copacabana a Botafogo. 

Foi nesse cenário que o jogo de azar, braço da indústria turística presente em todos os países civilizados do mundo, floresceu até 74 anos atrás, proibido em 30 de abril de 1946 pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, influenciado pela sua esposa, Carmela Teles Leite Dutra, devota da Igreja Católica, sob o argumento de que era degradante. 

A última roleta girou no Brasil no cassino do Copacabana Palace, naquela fatídica data. Havia então no Brasil cerca de 70 cassinos e 40 mil trabalhadores na indústria do jogo. Sobre o jogo, há algumas verdades que devem ser ditas, com urgência. 

1 – A clandestinidade do jogo de azar leva a potencialização do crime organizado, já que essa atividade corre à margem do Estado, que, assim, corre solta, sem fiscalização, sem deveres legais e sem contribuir com sequer um centavo para com o orçamento do país. 

2 – Um dos países onde mais se joga no mundo é o Brasil, movimentando cerca de 5 bilhões de dólares por ano, sem fiscalização e sem pagar nenhum centavo de imposto, nem gerar emprego formal. Só o jogo do bicho movimenta 10 bilhões de reais por ano, segundo estudo do Instituto Brasileiro Jogo Legal (IJL)/BNLData. 

3 – Também de acordo com o IJL/BNLData, o mercado de jogos no Brasil tem potencial de faturar 15 bilhões de dólares por ano, deixando para o erário 4,2 bilhões de dólares, além de 1,7 bilhão de dólares em outorgas, licenças e autorizações, isso, sem somar investimentos e geração de empregos na implementação das casas de apostas. E geraria mais de 658 mil empregos diretos e 619 mil empregos indiretos. 

4 – O jogo de azar é praticado em muitos países, como, por exemplo, Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Alemanha, França, Bélgica, Espanha, Itália, Suíça, Grécia, Portugal, Áustria, Holanda, Mônaco, Uruguai etc. A Região Administrativa Especial de Macau, na China, é hoje o principal centro de jogos do mundo, desbancando Las Vegas, nos Estados Unidos, como capital mundial dos cassinos, e faturando, com apenas 35 cassinos, 38 bilhões de dólares por ano. Os mais de 100 cassinos de Las Vegas faturam 8 bilhões de dólares por ano e só uma de suas maiores redes conta com 50 mil empregados. Quando o jogo foi proibido no Brasil, em 1946, havia 70 cassinos espalhados pelo país empregando mais de 40 mil trabalhadores, incluindo artistas como Carmen Miranda e Orlando Silva; era, então, a indústria que mais fazia o país prosperar. 

5 – Para o presidente do Instituto Brasileiro Jogo Legal (IJL), professor do curso de pós-graduação em Comunicação Empresarial da Universidade Candido Mendes (Ucam/RJ), editor do BNLData e jornalista especializado em loterias e apostas Magno José Santos de Sousa o Brasil se submete a uma das legislações mais atrasadas do mundo para o setor, e adverte: “A clandestinidade não anula a prática”. 

6 – Contratada pelo portal BNLData/Instituto Brasileiro Jogo Legal, a Paraná Pesquisas consultou 238 deputados federais, em maio de 2019, com a pergunta: “O Sr. (a) é a favor ou contra a legalização de todos os jogos de azar no Brasil, ou seja, a legalização de cassinos, jogo do bicho, casas de bingo, vídeo-jogo e jogo online?” Resultado: 52,1% dos deputados federais manifestaram-se favoráveis à legalização dos cassinos, jogo do bicho, bingos, vídeo-jogo e jogo online; 40,8% foram contrários; e 7,1% não responderam. 

7 – Pesquisa realizada pela Global Views on Vices, em 2019, estima que no mundo 70% da população são favoráveis aos jogos de azar e 25% não. Aqui, 66% dos brasileiros são favoráveis ao jogo, contra 25%. 

8 – Argumento da oposição ao jogo acha que a legalização dos jogos de azar pode agravar problemas na saúde, com alto custo de tratamento dos apostadores contumazes, além de aumentar a exploração sexual e a prostituição, piorar a segurança pública e prejudicar ações de combate à corrupção, aumentando lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e evasão de receitas. Ora, tudo isso ocorre agora, precisamente por causa da clandestinidade do jogo de azar, alimentando a corrupção, propina e chantagem. 

9 – Somente no Senado há quatro propostas de legalização do jogo, a mais adiantada delas pronta para ser votada em Plenário, o Projeto de Lei do Senado (PLS) 186/2014, do senador Ciro Nogueira (PP/PI), que autoriza a exploração de “jogos de fortuna” on-line ou presenciais em todo o território nacional, incluindo o jogo do bicho, videobingo e videojogo, bingos, cassinos em complexos integrados de lazer, cassinos on-line e apostas esportivas e não esportivas. Os demais são o PLS 2.648/2019 do senador Roberto Rocha (PSDB/MA); PLS 4.495/2020, do senador Irajá (PSD/TO); e o PLS 595/2015, do ex-senador Donizetti Nogueira, que seguem na mesma linha do PLS do senador Ciro Nogueira. 

10 – Por todas essas razões, a clandestinidade do jogo de azar é um equívoco que já dura 74 anos. A legalização do jogo de azar é inadiável e irreversível. 

O Congresso Nacional deverá aprovar a legalização do jogo este ano. Já está tudo pronto para isso.

Com informações da Wikipédia