RAY CUNHA, DE BRASÍLIA – O novo ano começa para valer quando as ruas ficam floridas de estudantes, o trânsito mais lento e o ar enfumaçado. Então a cidade recende a shopping, espresso, paletó e gravata. Mas de repente, e já há tanto tempo, os estudantes sumiram das ruas e o mundo mergulhou numa ditadura chinesa, um lockdown, um confinamento que se perpetua. Nossa esperança é que os estudantes voltem a florir as ruas do mundo, que retornem às aulas.

Lá fora, há várias guerras. Uma, se trava contra o coronavírus; outra, contra os assaltantes soltos pelo Supremo Tribunal Federal (STF); outra ainda, contra os traidores da pátria, um enxame mais voraz do que o dos vírus.

Mesmo de máscara, sou viajante diário maravilhado, ora mergulhado na dimensão literária, ora curtindo a cidade com os sentidos da alma. As possibilidades são muitas. Caminhar é uma delas.

O cruzamento da Avenida W3 Sul, defronte ao Pátio Brasil, é como uma extensão do shopping. No outro lado, enfileiram-se as quadras do Setor Comercial Sul, enfeitadas pelo fluxo contínuo de lindas mulheres, mais misteriosas ainda porque usam máscara; o fluxo aumenta e diminui, como um pulsar, e só cessa à noite.

Chego ao Conjunto Nacional. As possibilidades no Conjunto Nacional são infinitas. Na livraria Leitura, que resiste ao vírus chinês, sinto o prazer indescritível de ver um livro meu, O casulo exposto, na prateleira. Almoço no Giraffas.

No Sudoeste, em Brasília, a noite feérica foi substituída pelo silêncio e as manhãs se transformaram em luz. Se me canso de ler, assisto a um documentário sobre a África ou, se tenho sorte, um John Wick, com Keanu Reeves. Sem Tempo Para Morrer, com Daniel Craig e Léa Seydoux, de 2019, está prometido para este ano. Léa Seydoux é maravilhosa.