Vitória de Covas dá força a João Doria, mas governador ainda tem problemas a resolver para virar opção

Se o primeiro passo de uma conquista nacional é assegurar o seu território de origem, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) têm mesmo o que comemorar após o final destas eleições municipais.

Doria reelegeu o prefeito Bruno Covas em São Paulo, e parte para os seus planos de vir a suceder o presidente Jair Bolsonaro em 2022 mantendo a hegemonia tucana sobre o maior colégio eleitoral do país. E Ciro, com a vitória de Sarto Nogueira (PDT) em Fortaleza, mantém o domínio da sua família sobre a política do Ceará.

Número de habitantes

Em número total de prefeituras, o desempenho do PSDB de Doria no país foi pior que no pleito municipal anterior. Os tucanos administravam 785 municípios; administrarão 512. Também governará menos pessoas a partir do ano que vem. Mas, a partir da conquista em São Paulo, continuará sendo o partido que governa o maior número de eleitores do país. Serão 34,1 milhões de brasileiros os que vivem em cidades que serão administradas pelos tucanos.

Não é pouco. Ainda mais se vier de fato a se consolidar a tríade que Doria planeja construir com o MDB (que governará 26,1 milhões) e o DEM, partido que deu um salto impressionante, passando do comando de 266 cidades para 459, onde vivem 24,3 milhões de pessoas. Juntos, os três partidos estarão à frente da administração da vida de 84,5 milhões de pessoas.

“Distância dos extremistas”

Ontem, Doria, em entrevista em que anunciava a volta de São Paulo para o sinal amarelo de alerta contra a pandemia da covid-19, já tratou de estabelecer-se no jogo eleitoral de 2022, soltando diversas indiretas contra Bolsonaro e contra o espírito de radicalização e polarização política que parece ter se esvaído com o sentimento do eleitor agora. “Queremos distância dos extremistas, tanto de esquerda quanto de direita”, disse Doria nesta segunda-feira. “O estado democrático de Direito sai fortalecido (das eleições).”

Não será, porém, uma tarefa fácil conseguir, de fato, apresentar-se ao eleitor e convencê-lo de que seria ele, Doria, o rosto por trás do sentimento de “distância dos extremistas”.

O primeiro problema com o qual Doria terá de lidar será administrar e dar explicações para o fato de em 2018 ter optado também pelo extremismo, abandonando o candidato à Presidência do seu partido, Geraldo Alckmin, para apoiar Bolsonaro, formando o que ficou conhecido como aliança BolsoDoria. Doria terá que dizer que sua escolha em 2018 foi um erro, e talvez aí contar com o beneplácito de eleitores que porventura venham a reconhecer o mesmo erro também.

Outro ponto que Doria terá que administrar: se Covas é claramente uma vitória sua, em determinado momento da campanha o governador teve que se manter paradoxalmente afastado da campanha porque sua proximidade tirava votos do seu candidato.

Embora seja o padrinho da eleição de Bruno Covas e maior beneficiário dela, Doria tem uma taxa de rejeição alta no seu território de origem. Pesquisa do Ibope feita no final de novembro apontava para uma taxa de rejeição de 51% do governador de São Paulo, não muito menor que a taxa de rejeição de Bolsonaro, de 54%.

Covas ficou afastado

Durante a campanha eleitoral en São Paulo, o prefeito Bruno Covas evitou uma maior aproximação do governador João Doria porque seus estrategistas imaginavam que isso, dada a alta rejeição do governador na cidade, poderia lhe tirar votos.

Essa alta rejeição é o ponto que, de certa forma, relativiza um pouco a vitória de Covas como uma vitória de Doria com vistas a alavancá-lo para a disputa de 2022.

Doria ainda precisa recuperar popularidade em seu rincão. Isso pode ser conquistado com a vitória de Bruno Covas, mas há um caminho a percorrer. Logo após a vitória, o governador tratou de posar ao lado do prefeito vitorioso e, agora que a vitória foi conquistada, naturalmente não foi rejeitado.

“O governador foi explicitamente escondido”, observa o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, em entrevista ao site da BBC.

Para ele, há um dado que Doria terá que conseguir reverter com relação à sua imagem pública. “Ele foi eleito governador na onda do bolsonarismo em 2018. Mas esse espírito foi brutalmente derrotado nestas eleições”, considera o professor.

Ou seja, apesar da vitória de Bruno Covas, há determinados aspectos em torno da figura de João Doria que o eleitor rejeitou agora. Ele também era a novidade da política, o empresário que chegava para renovar a política dos vícios dos profissionais.

Seu afastamento de Bolsonaro deu-se mais a partir dos movimentos do presidente, que começou a rejeitá-lo à medida em que o via como possível adversário no campo conservador. O mesmo tipo de reação que Bolsonaro teve com o governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel.

O primeiro grande desafio do governador de São Paulo será convencer o eleitor de que esses aspectos não estão agora ligados a ele.

Saiba Mais

Finalmente, Doria tem que de fato conseguir nos dois anos até as próximas eleições tornar-se um nome nacional. Ontem, o próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, espécie de líder de honra do PSDB, admitiu que esse ainda é um grande problema. João Doria ainda é um político paulista, ainda lhe falta muito para se tornar um nome conhecido nacionalmente.

Nesse sentido, Doria aposta na força que pode ter uma caixinha branca e cor de laranja que daqui a algum tempo carregará dentro uma seringa. Ele patrocina os estudos em São Paulo do Instituto Butantan para a produção da vacina Coronavac, desenvolvida em parceria com o laboratório chinês Sinovac.

Ter seu nome associado à produção da substância que pode levar o brasileiro a sair do triste quadro de doença e isolamento que se abateu sobre o planeta este ano poderá sem dúvida ser um precioso cacife.

E a declaração da guerra das vacinas por Bolsonaro é um claro sinal de que o presidente sabe o tamanho desse risco e o potencial envolvido.

Por Redação Jornal de Brasília